E a Frente Ampla fez água no Ceará…

Por Luã Reis – As águas políticas rolaram: enquanto no Senado se aprovava a privatização da água e do saneamento público, Bolsonaro inaugurava um trecho da transposição do Rio São Francisco. Congresso e Bolsonaro deram um passo para o centro, se aproximando ainda mais.

O tucano Tarso Jereissati, o Senador Coca-Cola, foi o relator do projeto da entrega da água brasileira para as multinacionais. Tarso é o executivo da Coca-Cola para a América Latina e Senador pelo Ceará. Quanto será que as ações da empresa símbolo dos EUA se valorizaram diante da perspectiva de meter o canudo nas maiores reservas de água doce do mundo?

Jereissati, no entanto, foi eclipsado no debate político sobre projeto pelo afilhados políticos, Cid e Ciro Gomes, aliados de longa data no Ceará. Cid e Ciro não só defenderam o projeto tucano como tentaram dar a ele uma roupagem progressista, um perfil democrático, um verniz de esquerda. Segundo os irmãos do PDT, a água não seria privatizada e o projeto levaria era saneamento para o povo. Ainda se gabam de terem feito uma espécie de contenção de danos, a partir de um “acordo entre oposição e governo”. Só não está exatamente visível quem é governo e quem é oposição. O Senador Coca-Cola é do governo? Os tucanos são governistas ou oposicionistas?

O PT foi o único partido a orientar voto contrário ao projeto. A denúncia mais contunde, no entanto, é feita pelo deputado do PSOL, Glauber Braga. Desde então, Braga está sendo atacado nas redes, vítima de todo tipo de fakenews dos fãs de Ciro. Mostrando que o antipetismo cirista engloba um sentimento mais amplo contra a esquerda.

Na terra da nascente do cirismo, o Ceará, Bolsonaro abria as compotas de um trecho da transposição do Rio São Francisco. Em 2018, quando Bolsonaro assumiu, a obra estava 95% pronto, cabendo ao governo finalizar alguns detalhes. A obra vai contra a política econômica liberal de Bolonaro-Guedes que preza pelo Estado mínimo da ausência total de investimento público. A transposição foi concebida e iniciada nos governos do PT, que prezavam pela realização de obras bancadas pelo Estado. Isso não impediu Bolsonaro de fazer propaganda do próprio governo com a inauguração, salientando como ajudaria as populações pobres mais afetadas pela seca.

As redes bolsonaristas replicaram a exaustação as imagens de Bolsonaro sobre as águas, apelando para certo sentido religioso. Ainda que com deturpação de crédito (“Bolsonaro fez o que o PT falhou”), esse time de mensagem enaltecendo uma realização concreta difere bastante do padrão típico do bolsonarismo de ataques a reputações, calúnias e ameaças. Bolsonaro deu um passo na direção do centro.

Portanto, enquanto no congresso tenta se pintar um projeto direitista de privatização como de esquerda, Bolsonaro tenta pintar de direitista uma obra como investimento público. Tudo pelo centro, devidamente “sem extremismos”.

Há uma clara domesticação de Bolsonaro em curso, que esteve bem menos estridente nas últimas semanas. Por um lado a ação do STF que, liderado pelo tucano Alexandre de Moraes, domou as redes digitais bolsonaristas, cortou um princípio do paramilitarismo semioficial e conseguiu a queda do ministro da educação supremacista, Weintraub. Pelo outro lado, as polícias civis e o MP’s de São Paulo e Rio de Janeiro fizeram operação contra alvos próximos da família Bolsonaro, incluindo o famigerado Queiroz. Essa ações coordenadas colocaram uma focinheira momentânea no líder da extrema-direita.  

A política de Frente Ampla, que se articula em manifestos do tipo “Somos 70%” ou “Direitos Já”, que vai de Rodrigo Maia, Huck, Temer até Ciro, Haddad e Flávio Dino, pode comemorar. Afinal, esse tipo de articulação amplíssima não pede o “Fora Bolsonaro” e sim que ele “respeite as instituições e a democracia”. Uma noção muito limitada de democracia pois inclui a cobrança dos brasileiros pela água do país.

Logo, para a Frente Ampla, o recente cometimento bolsonarista foi a vitória final, cabendo agora só manter Bolsonaro na linha. O grão-tucano, Fernando Henrique Cardoso, já vetou o impeachment, mandando o PSDB esquecer o assunto.  Para FHC, o tal combate ao fascismo é uma tempestade em um copo d’água. Difícil imaginar que a nova postura de Bolsonaro seja permanente e não um recuo estratégico.

Nas águas do Ceará e nas políticas dos tucanos cearenses para a água, a Frente Ampla começa a fazer água para os que lutam por direitos sociais. Ao embarcar nessa canoa furada, a esquerda vai dar com os burros na água.

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