A VOTAÇÃO DE SALAH E O FUTURO DA DEMOCRACIA NO EXEMPLO EGÍPCIO

Luã Reis – A eleição presidencial no Egito teve o resultado esperado: vitória esmagadora do golpista tornado presidente, o General Abdel Al Sisi, com mais de 90% dos votos válidos. Também previsto foi o baixíssimo comparecimento às urnas, menos de 40% dos egípcios aptos foram votar. O endurecimento do regime, cuja a face mais visível foi a exclusão sumária da maioria dos candidatos ao cargo. O instrumento para o impedimento de candidaturas oposicionistas é conhecido e em voga no momento: a perseguição judicial.

Sisi concorreu na prática contra apenas um “oponente”, Mostafa Moussa, que na prática é um aliado do governo. No entanto, para a surpresa geral, Moussa não foi o segundo colocado. Na vice-liderança na votação ficou Mohammed Salah, atacante da seleção egípcia, astro do Liverpool, artilheiro do campeonato inglês. Salah é provavelmente a maior unanimidade do país. O jogador não era candidato, mesmo assim mais de 1 milhão de pessoas votaram no atacante. Logo Salah ficou com 5% dos votos contra 3% de Moussa.

O voto foi de protesto, mas não organizado. Toda a propaganda relativa ao pleito era vigiada de perto pelas autoridades eleitorais: desde de julho de 2017, o ministério do Interior do Egito prendeu dezenas de pessoas “por incitamento à violência, postagens críticas ao governo em mídias sociais, insultando o presidente Sissi ou perturbando a paz pública”. A manifestação, portanto, foi quase espontânea, sendo divulgada pelo boca-a-boca.

Em 2011, o mundo acompanhou a tomada da praça Tahir pelo povo que “queria a queda do regime”. O velho marechal foi deposto, realizaram-se eleições, o novo presidente, Mosri, religioso, era amplamente rejeitado por boa parte da população. Nessa contradição o exército aproveitou para retomar o poder, de maneira ainda mais dura, repressora e autoritária.

Qualquer semelhança com outros países em crises semelhantes não é mera coincidência. Há uma crise geral da democracia: cada vez mais se percebe as evidentes limitações de representação. Mais da metade dos eleitores não comparece as eleições já é um sinal claro da falta de confiança no sistema político. O segundo colocado ser um jogador que não concorria é uma demonstração de outra envergadura. O poder golpista desafiado pela irreverência. No teatro da democracia, o povo do Egito fez um pouco de comédia, ainda que a mensagem deva ser levada a séria. 

A revolução traída do Egito é um exemplo bem acabado que alerta sobre o futuro da democracia, ou a ausência dele. O resultado aponta para um governo com ausência de legitimidade, que pode resultar em um mais repressão. Tal endurecimento pode estimular a busca de saídas fora da democracia viciada, até novas insurreições. Ou podemos torcer para que Salah possa ser tão bom presidente quanto é artilheiro.

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