O SEGUNDO ENCONTRO KIM E TRUMP: UM REGIME VIOLENTO QUE PRECISA DA GUERRA E A CORÉIA DO NORTE

Luã Reis – Quando Kim Jong Un e Donald Trump se encontraram em Singapura, em junho de 2018, foi uma surpresa para a maior parte do mundo. A retórica bélica americana, expressada desde os anos 1950, incrementada recentemente por Obama, atingindo o ápice com Trump, e que era respondida à altura pelos coreanos, era revertida. Naquele momento, a desconfiança internacional com a Coréia do Norte era expressa nas sanções e criticas da ONU, embora esta reconhecesse também a virulência das declarações dos EUA. Apenas a China estava com a Coréia, embora com algumas relutâncias.

Menos de um ano depois, o mundo girou. A geopolítica asiática sofreu (e sofre!) tremendas transformações, começando pela própria península coreana. Na Coréia do Sul, o presidente Moon Jae-In e seu Partido Democrático, à esquerda, se consolidaram no governo, sendo a preferência de mais de 70% do eleitorado do país, como demonstraram as eleições municipais ano passado. Moon, histórico pacifista, enxerga não só a paz entre o divido país, mas a unificação. Em décadas, as coreias, a Coréia, nunca estiveram tão próximas.

Essa aproximação incentivou os chineses a manterem, e ampliarem, o apoio a Coréia do Norte. A prioridade da China é a paz na Ásia, mas especialmente na sua fronteira leste, assim apesar do enorme comércio com a Coréia do Sul, os chineses conservavam certa relutância com o país de Moon. O histórico estender de mãos de Moon a Kim, também foi um importante aceno para Beijing.

A Coréia e a China tem uma histórica rivalidade em comum: o Japão e as brutalidades do imperialismo japonês. As conversações entre Beijing-Pyongyang- Seul colocou Tóquio em uma posição defensiva. Nesse sentido as dezenas de milhares de tropas americanas estacionadas no Japão, na base em Okinawa, são mais um motive de tensão do que segurança. Na semana que passou, aliás, mais de 80% da população de Okinawa voltou contra a ampliação da base dos EUA.

Com o Japão neutralizado e com apoio de sul-coreanos e chineses, a Coréia do Norte passou a ser cortejada por outras nações do leste da Ásia: a Rússia, a qual Kim agendou uma viagem; as Filipinas, país próximo a Coréia do Sul e a China; a Índia, segundo maior parceiro comercial; e, as nações da Indochina, Malásia, Tailândia, Singapura e Vietnã, essas duas nações sedes dos encontros entre coreanos e americanos.

Nas olímpiadas de inverno de 2018, o mundo conheceu o talento de Kim Yo Jong, irmã de Kim Jong Um, visivelmente com muito mais capacidade e destreza diplomática que o vice-presidente dos EUA, Mike Pence. Se alguém poderia pensar que Jong Um queria guerra, a ponderação e serenidade de Yo Jong jamais passou uma impressão dessa. Pence, ao contrário, se demonstrou sedento pela guerra, que derramaria apenas sangue asiático em nome do complexo industrial-militar dos EUA. No encontro de junho do ano que passou, não era a Trump que Kim se dirigia, era ao próprio mundo, mas em particular a Ásia.

Agora, nesse encontro no final de fevereiro de 2019, Kim Jong Um não pode ser mais estereotipado nem pela mídia corporativa mundial, nem pelas agências de inteligência americanas e europeias. Em menos de dois anos, a Coréia do Norte saiu da posição de considerada pária no concerto das nações para ser um ator importante e racional. O encontro com Moon e a participação nas Olimpíadas de Inverno mostrou que violenta, bélica, tarada por guerra é a direita da Coréia do Sul. Ao fazer os EUA se sentarem à mesa de negociações, Kim confirma que o programa nuclear é sim defensivo, tendo cumprido seu papel. Por outro lado, o mesmo não se pode dizer das sanções dos EUA contra a Coréia do Norte – reconhecidas pela Carta da ONU como atitudes beligerantes – menos ainda das centenas de milhares de soldados americanos estacionados na Coréia do Sul e no Japão, uma verdadeira ocupação militar odiada pela esmagadora maioria das populações. 

Kim propõe o fim do programa nuclear, isto é da estratégia de defesa, se os americanos abandonarem os ataques. Para não correr o risco de um novo Iraque ou uma nova Líbia, a Coréia do Norte conta com a aproximação com a Coréia do Sul e o resguardo chinês. Mas, como demonstra o ataque em andamento contra a Venezuela e a incapacidade da retirada das tropas da Síria, o regime americano atravanca as possibilidades de paz.

O encontro dessa semana terminou sem acordo porque a Coréia do Norte segue firme pela paz, deixando evidente que essa possibilidade ameaça a estrutura do poder dos americanos. No Vietnã, os EUA sofreram uma nova derrota, o que não surpreende mais ninguém, especialmente na Ásia.

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