A “CONFISSÃO” DE BATISTTI À LUZ DA CELEBRAÇÃO DO GOLPE DE 1964

Por Luã Reis

Após meses preso e incomunicável, Cesare Battisti “confessou” os crimes cometidos em meio a luta contra o fascismo remanescente na Itália entre os anos 1960 e 1980. Tal depoimento deve ser encarado com total ceticismo, pois foi extraído a base de coerção, chantagem e tortura. O artigo 41-bis, dispositivo legal do Estado italiano, conhecido como “carcere duro”, autoriza o confinamento do detento em solitária, sem nenhum contato humano ou acesso a meio de comunicação, por tempo indeterminado. Trata-se de óbvia tortura psicológica. Isso sem contar as outras prováveis ações à margem da lei realizadas contra o detento pela polícia italiana.

No depoimento em que “admitiu” os crimes que negou durante quarenta anos, Battisti fez questão de assumir toda a responsabilidade pelos atos, se recusando a entregar outras pessoas. Evidencia-se um acordo com a promotoria italiana: Battisti não delata os antigos companheiros, enquanto aceita servir de troféu para o Ministro do Interior Mateo Salvini, figura máxima da extrema-direita italiana. Na mesma semana que Battisti era extraditado para a Itália, Salvini escancarava racismo.

A cabeça de Battisti em uma bandeja serve também à extrema-direita brasileira. Bolsonaro celebrou a “confissão”, no que foi acompanhado pela totalidade da imprensa corporativa brasileira, mostrando que as rugas com a mídia são mais na forma do que no conteúdo. Os mesmos jornais e canais de rádio e TV que se dizem horrorizados com a celebração bolsonarista do golpe militar de 1964, ignoram não só a tortura a qual foi submetido Battisti para a extração da “confissão”, mas também relevam o contexto no qual os supostos crimes foram cometidos.

No período em que os Proletários Armados pelo Comunismo, grupo de Battisti, confrontava e era perseguido pelo Estado italiano, o grupo fascista Nova Ordem explodia a estação ferroviária de Bolonha, matando 95 pessoas. Alguns elementos fascistas foram tranquilamente para o exterior, outros vivem na Itália mesmo sem serem incomodados. Cabe recordar que após a Segunda Guerra Mundial, a Itália entrou em uma batalha pelo poder, na qual as potências liberais e “democráticas” não se furtaram em apoiar os remanescentes do regime fascista para impedir a ascensão comunista ao poder em Roma.

Um paralelo óbvio com o Brasil: findada a ditadura militar, não houve punição alguma aos torturadores e outros carniceiros que cometeram todo tipo de atrocidade contra a população. Pelo contrário, foram perseguidos aqueles que lutaram contra o regime. Quem resistiu à ditadura sofre, agora, uma segunda tortura, uma nova morte, com o flagelo revigorado na celebração do golpe de 1º de abril de 1964. Os jornais regozijam com o “depoimento” de Battisti, mas procuram se distanciar da celebração do golpe que tanto apoiaram à época. Bolsonaro e Salvini são mais honestos no que confessam: o brasileiro é saudosista da ditadura militar, o italiano celebra o fascismo. Regimes de extrema direita, que massacram as liberdades e direitos da população, afinal, tudo aquilo que Battisti sempre declarou lutar contra.

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