COOPERAÇÃO MILITAR INTERNACIONAL PROMOVIDA PELA RÚSSIA GARANTE A SOBERANIA DOS PAÍSES CONTRA-HEGEMÔNICOS

Por Gabriel Barata

Seja em Havana, Caracas, Damasco, Teerã, Bangui ou nos mares da China. Se há um país querendo se fortalecer de maneira soberana e longe dos interesses dos Estados Unidos, a Rússia está disposta a ajudá-lo. E não apenas com declarações fortes ou representações diplomáticas. Desde a vitoriosa intervenção na guerra da Síria contra o Estado Islâmico, a Rússia não hesita em demonstrar sua renovada capacidade militar em favor de países não alinhados aos interesses norte-americanos.

A política externa da Rússia em relação aos EUA continua a mesma. Putin jamais demonstrou qualquer disposição em atacar a posição relevante que os Estados Unidos têm internacionalmente. Apenas quer que Washington siga as regras do jogo e respeite o interesse dos outros países. Mas a política de Putin está mais ofensiva do que jamais esteve desde a criação da Federação Russa. Durante a ofensiva golpista levada a cabo por Juan Guaidó na Venezuela, a Rússia não hesitou de colocar em prática os termos do acordo de cooperação militar com a Força Armada Nacional Bolivariana e enviou dois aviões e instrutores para o país. Fato que enfureceu os Estados Unidos e que provou que a Casa Branca entende que onde os russos estão a resistência aos ataques imperialistas é muito mais dura.

É assim na Venezuela que, além da ajuda militar, intensificou o comércio bilateral com a Rússia. É assim na Síria, desde 2015, no Irã e na China. E mesmo que não existam tratados entre Pequim e Washington nem se vislumbre a possibilidade em curto prazo de uma grande aliança militar (porque se isso fosse realidade os EUA, imediatamente, entrariam com representações para que seus aliados da OTAN dificultassem ainda mais a vida na Rússia), as cooperações existem e são assunto de Estado.

A Rússia gastou, em 2017, U$ 66,3 bilhões em defesa. Os EUA gastaram cerca de U$ 700 bilhões. Fica claro que os russos não podem entrar em uma corrida armamentista que destruiria sua economia. A Rússia precisa crescer e melhorar a vida de seus cidadãos, já que essa foi a grande demanda da população nas últimas eleições e a principal promessa de campanha de Putin. Para isso, busca aliar acordos de cooperação comercial com auxílio militar. A China sabe que precisa do petróleo e do gás russo e por isso a vê como principal parceira na Nova Rota da Seda. Mas Pequim sabe que precisa concentrar gastos em infraestrutura e pesquisa e desenvolvimento para continuar liderando a revolução científica atual e que a Rússia é uma aliada que lhe garante segurança.

Não há nenhum grande acordo militar entre Rússia e China, mas, em junho desse ano, dois navios de guerra, um russo e outro americano, quase colidiram nos mares chineses. A ingerência dos EUA em território estrangeiro já são conhecidas, mas um navio de guerra russo em águas chinesas que são alvo de disputas territoriais mostra que Moscou, além dos exercícios de defesa conjuntos com a marinha chinesa, também faz um trabalho de inteligência na região.

O encontro entre Putin e Kim Jong-un em Vladivostok foi importante para a Coreia do Norte porque uma futura aliança militar com a Rússia pode garantir que Pyongyang ainda esteja livre das ações agressivas dos EUA. A cooperação com os iranianos, que embora não seja explícita, pois resultaria em mais sanções para os dois países (o que Putin menos deseja no momento), pode fazer com que se coordene rapidamente o chamado Eixo da Resistência no Oriente Médio, formado por Palestina, Líbano, Síria, Iraque e Irã. Poucos dias depois do governo de Donald Trump adicionar Cuba à categoria mais severa de países com tráfico humano, em uma clara intenção de impor mais sanções econômicas à ilha, chegaram à Havana navios de guerra para um treinamento com as Forças Armadas Revolucionárias.

O  grande temor dos Estados Unidos e da OTAN é que o poder militar russo é extremamente relevante. Apesar de seus gastos serem muito menores, os resultados comparativos com o que é investido pelos americanos são superiores. Por isso, o relatório Comissão de Estratégia Nacional de Defesa dos EUA indicou que é preciso que os investimentos militares tenham como objetivo ampliar as ações contra a China e a Rússia, expandir a marinha e a força aérea. Duas categorias dominadas pelas tecnologias russas. E o relatório ainda deixa claro, é preciso que a capacidade militar dos Estados Unidos possa enfrentar duas guerras ao mesmo tempo. Era isso que faziam os grandes conquistadores como Gengis Khan. Como Hitler, figura que Trump parece se inspirar. 

Abrir várias frentes de guerra, destruir seus adversários e controlar todo o planeta. É isso que buscam líderes como o atual presidente dos Estados Unidos. É por isso que os EUA saíram do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e reposicionaram seus mísseis contra a Rússia. Mas Moscou não parece disposta a recuar.

Pelo contrário. O governo russo confirmou a venda do sistema de defesa antiaérea S-400 para a Turquia, enfurecendo Washington (o governo Trump retaliou Ancara e disse que cancelaria a venda de 100 caças f-35 produzidos nos EUA. Imediatamente, os russos ofereceram seus modernos caças Su-35 ao governo turco), e ainda vai enviar militares para instruir o exército turco a utilizar o armamento. Esse sistema já está instalado na própria Rússia, na Bielorrússia e na China. E Putin planeja expandir esse sistema para a República Centro-Africana e para outros países do continente.

Enquanto Trump e seus principais conselheiros esbravejam sobre a capacidade militar dos Estados Unidos, em uma clara demonstração de desespero de um líder que vê seu império desmoronar, a Rússia trabalha silenciosamente. Se Trump repete Hitler, que no fim da Segunda Guerra mundial mandava suas já combalidas tropas para missões destinadas à derrota, Putin faz lembrar a atuação de Stalin no conflito. Alia-se a todos os países com verdadeira disposição de combater a maior ameaça atual à humanidade. Na década de 30 as ameaças eram a Alemanha e  o nazismo. Hoje são os EUA e o neoliberalismo.

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