Golpe na Bolívia: participação de Bolsonaro e fraude da OEA

Luã Reis – Em 20 de outubro de 2019, os bolivianos elegeram Evo Morales presidente para mais um mandato. Derrotada nas urnas, a direita boliviana, empresariado e pastores, organizou um motim da polícia e de setores militares para um Golpe de Estado que custou a vida de milhares de pessoas. Passados sete meses, o saldo é catastrófico para a Bolívia: massacres, economia paralisada, assalto a cofres públicos, escassez de produtos, inflação, perseguição política e violações de direitos humanos denunciada na ONU. Isso tudo mesmo antes da pandemia.

Todas essas violências foram justificadas a partir de dois supostos fatos: Evo teria fraudada a eleição, conforme teria demonstrado os observadores da OEA; e o movimento foi para proteger os interesses da Bolívia.

Agora vem à tona que essas duas teses são totalmente falsas: o relatório da OEA é uma fraude completa e o golpe foi organizado a partir do Brasil, com a ajuda de funcionários do governo Bolsonaro e de agentes dos EUA.

Segundo estudo estatístico feito a partir de documentos dos tribunais eleitorais dos EUA, publicado pelo New York Times, o relatório da OEA é inconsistente, inconclusivo, falso:

Os autores do estudo disseram que não foram capazes de replicar as descobertas da OEA usando suas prováveis técnicas: “o crescimento repentino na tendência só surgiu quando foram excluídos os resultados das cabines de votação processadas manualmente e com relatórios tardios.” Essas cabines eram de áreas rurais e de redutos históricos do Movimento Ao Socialismo (MAS) partido de Evo.

Segundo o estudo “a organização usou um conjunto de dados incorretos para chegar à sua conclusão, o que causaria uma diferença significativa, já que os relatórios tardios excluídos seriam a maior parte dos votos finais considerados suspeitos pela OEA.” Essa diferença desconsiderada pela OEA era de mais de 4%, a acusação contra Evo afirmava que 0,5 havia sido fraudados, possibilitando a vitória dele no primeiro turno.  

A conclusão é que a “OEA utilizou usou um método estatístico inadequado, que teria criado artificialmente a aparência de uma quebra na tendência de votação.” A OEA foi voz ativa durante os dias de indefinição sobre o pleito e acusações contra o MAS. A Organização transformou a inexistente “quebra de tendência de votação” em uma mentirosa “fraude”, que permitiu a farsa da “autoproclamação” de Jeanine Áñez como presidente.

Agora surgem evidências da participação do Governo Bolsonaro no golpe que empossou Áñez. Segundo o jornal argentino Página/12, dados da empresa estadunidense de rastreamento de voo FlightAware mostram que o avião 001 da Força Aérea Boliviana – ou FAB001 avião presidencial da Bolívia – estava em Brasília nas primeiras horas do primeiro dia do golpe, em 11 de novembro de 2019, começando a realizar uma série de voos que poderiam explicar os vínculos dos conspiradores bolivianos com o governo Bolsonaro.

A reportagem do Página/12 afirma: “Os dados que o FlightAware entrega são confiáveis. A empresa está sediada em Houston, no Texas, e é uma conhecida empresa global de software de aviação que fornece rastreamento de voos para aeronaves particulares e comerciais em todo o mundo. Em seus arquivos, as viagens do FAB001 continuaram após o golpe. O que é surpreendente é que os voos para o exterior do avião presidencial desde o dia 11 de novembro e até o dia 8 de maio, foram feitos exclusivamente para o Brasil. São registrados 25 voos, sem contar os dias em que a aeronave estava estacionada nos aeroportos brasileiros, e com detalhes dos voos entre diferentes cidades do país. Com relação às transferências no território boliviano, ele praticamente voou para Santa Cruz, o distrito onde foi planejado e organizado o golpe contra Morales. A aeronave presidencial praticamente não visitou o restante dos departamentos bolivianos.

De fato, o que tornou conhecida a existência desses voos suspeitos foi o fato de ter sido divulgado pelas redes sociais que, em 7 de maio, o avião presidencial boliviano havia retornado do Brasil depois de passar vários dias por lá. Naquela semana, não havia explicação para a transferência da aeronave para esse país. Além disso, o governo de Áñez considerou essa informação falsa. No entanto, lendo a planilha da FlightAware, se pode ver que o FAB001 voou para Brasília em 30 de abril e depois foi a São Paulo, onde passou algumas horas, antes de retornar à capital brasileira. O avião boliviano se manteve em Brasília até 8 de maio, quando retornou a La Paz.

Embora o status legal da presidência de Áñez possa ser contestado, a verdade é que, se ela tivesse viajado nesses voos para o Brasil, deveria ter notificado o parlamento boliviano para que pudesse ser substituída por quem fosse o líder da Assembleia. Nesse caso, caberia à presidenta do Senado, Eva Copa, que pertence ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Morales.”

Evo comentou sobre os fatos ao reportagem ao jornal: “Eu renunciei precisamente para evitar derramamento de sangue e confrontos. Isso foi no dia 10 de novembro às 17h. Minha informação oficial, checada e confirmada era que, às 18h30, Waldo Albarracín, um ativista de direita, se reuniu com outros líderes da direita local, como Carlos Mesa, Luis Fernando Camacho, Jorge Quiroga, representantes da Igreja Católica, da embaixada brasileira e também da União Europeia. Era domingo, e todos decidiram que Áñez seria colocada na presidência. No dia 11, quando tentei sair de Cochabamba para ir ao México, já havia alguém na residência oficial da presidência, que não era eu. Eu já não era mais o presidente.

Então, quando a embaixada brasileira participou da reunião no domingo, uma hora depois da minha renúncia, é porque eles já estavam participando da trama que levaria Áñez ao poder. Eu me pergunto, falando do embaixador brasileiro, qual foi o papel desse país no golpe. Como os militares podem simplesmente ter o FAB001 disponível? Então, eu imagino, e pode ser que eu esteja errado, que certamente alguém já sabia que seria assim, uma plataforma dentro das Forças Armadas e policiais. Você tem que ter a plataforma disponível e preparada para fazer isso. E, de acordo com as informações, nos dias posteriores ao golpe, houve muitas viagens ao Brasil.”

Evo conclui que “houve a participação da embaixada brasileira em uma reunião com Mesa, com Quiroga, com Camacho, e esses personagens, juntamente com alguns hierarcas da Igreja Católica, foram atores no golpe de Estado.”

A resistência popular na Bolívia foi duramente reprimida, sendo milhares de pessoas assassinadas pelo regime Áñez. A presidenta não-eleita da Bolívia realiza os sonhos ditatoriais de Bolsonaro. No entanto, essas mesmos mobilizações do povo, mesmo durante a pandemia,  obrigou o congresso a marcar as datas de novas eleições em setembro. Resta saber qual será o papel da OEA, de Bolsonaro e das agências dos EUA, sempre interessados na democracia.

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