Hoje na história: nascia a primeira mulher a fazer análise no Brasil

via hypeness

Virgínia Leone Bicudo nasceu em 1915, no dia 21 de novembro, na cidade de São Paulo. Neta de escrava, Virgínia Bicudo foi a primeira mulher a fazer psicanálise na América Latina. Bicudo é uma das mais importantes sociólogas e psicanalistas brasileiras, que para a maioria de nós é praticamente uma desconhecida. Virgínia foi a primeira pessoa a ser reconhecida como psicanalista sem possuir formação médica no Brasil, além de ser uma pioneira no estudo das relações raciais e do racismo – tendo publicado o primeiro trabalho de pós-graduação sobre relações raciais no país.

Antes de migrar para as Ciências Sociais, ela formou-se em Educação Sanitária, em 1932. Foi ministrando aulas de higiene em escolas que ela começou a se interessar pela sociologia – e, em 1945, publicou a dissertação Estudos de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo, o primeiro projeto de pós-graduação no Brasil a tratar das relações sociais e raciais no país – e esse não foi de forma alguma o único pioneirismo de Virgínia.

Como a primeira mulher a fazer análise na América Latina – com a Dra. Adelheid Lucy Koch, primeira analista credenciada do Brasil – Virgínia se candidatou, em 1937, a tornar-se membra da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, efetivando-se em 1945 para se tornar a primeira pessoa não-médica a ser reconhecida como psicanalista no Brasil. Tal pioneirismo não se deu sem resistência: muita gente lutou contra a entrada de Virgínia, que jamais ralentou em seu processo, e viria a se tornar um dos mais importantes nomes pela construção, institucionalização e popularização da psicanálise no Brasil.

Sua luta era basicamente pra entender e desvendar o sofrimento e a dor que ela própria viveu por conta do preconceito. Do aspecto social e cultural até o sentido mais profundo da psique individual e coletiva, Virgínia enfrentou o preconceito por todas as frentes. “Eu me interessei muito cedo por esse lado social. Não foi por acaso que procurei psicanálise e sociologia. Veja bem o que fiz: eu fui buscar defesas científicas para o íntimo, o psíquico, para conciliar a pessoa de dentro com a de fora. Fui procurar na sociologia a explicação para questões de status social. E, na psicanálise, proteção para a expectativa de rejeição. Essa é a história”, disse Virgínia, em entrevista de 1998.

Virgínia foi efetivamente a primeira psicanalista brasileira com trânsito e publicações internacionais. Infelizmente seu trabalho diluiu-se e acabou um tanto esquecido ao longo do tempo – sua própria história é ilustração da luta que lutou e do preconceito e discriminação que procurou compreender e enfrentar. Faleceu em 2003, aos 88 anos, como uma das mais importantes cientistas sociais e psicanalistas da história do Brasil.

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