A LAZIO E A PRISÃO DE CESARE BATTISTI: UM PASSADO QUE NÃO PASSA

Luã Reis – Duas manifestações de êxtase da direita na Itália na semana se que passou: enquanto Cesare Battisti era encarcerado, nas arquibancadas no jogo da Lazio, cânticos racistas e antissemita eram entoados no primeiro jogo da equipe após a pausa invernal. Eventos que compartilham uma origem comum.

 A radicalização política da juventude italiana remete ao final dos anos 60, auge da Guerra fria, atravessando os 70 e 80: quando apareceram as bandeiras de Che Guevara nas arquibancadas dos jogos do Milan e cruzes celta nos jogos da Lazio; quando grupos como de Battisti, o Proletários Armados pelo Comunismo, perseguiam fascistas, e os movimentos de extrema-direita, como o Núcleo Armado Revolucionário, recorriam a violência como ferramenta política. Foram os fascistas que inauguraram a época atentados políticos na vida italiana no pós-Guerra, com o atentado da Piazza Fontana que tirou a vida de outras 17 em 1969, também realizaram o maior deles a explosão da estação ferroviária de Bolonha, que matou 85 pessoas em 1980. Os autores dos massacres da extrema-direita pouco foram incomodados pela justiça italiana. Um dos terroristas da Piazza Fontana, Delfo Zorzi foi para o Japão, obtendo cidadania japonesa e vive tranquilamente no país asiático até hoje.

A radicalização da juventude impulsionava a polarização dos partidos, que eram obrigados a lidar com as tendências extremas em ambos os lado do espectro político: à esquerda, o Partido Comunista Italiano e o Partido Socialista Italiano, à direita, o Movimento Social Italiano e a Democracia Cristã. Outrora importantes partidos, todos sumiram, sendo amalgamados em novas agremiações, todas cada vez mais a direita.

(O Partido Comunista Italiano foi o maior partido comunista do ocidente, o terceiro maior do planeta. Atingido pela Operação Mãos-Limpas, “contra a corrupção”, a burocracia resolveu fazer uma autocrítica: cometeu um suicídio se aglutinando com a antiga rival da Democracia Cristã, formando o centrista Partido Democrático. Seria como o PT se fundir com o PSDB por conta da Operação Lava-Jato. Ideias desse tipo estão por aí, apresentadas de diversas formas. O exemplo italiano lembra como o absurdo pode se tornar real e as consequências nefastas.)

Nesse sentido, há mais espaço para a esquerda italiana nas curvas do estádios nos jogos do Livorno, Sampdoria, Torino, Napoli, Atalanta do que na política institucional. Uma torcida antifascista da Sampdoria, por exemplo, mudou de nome: Antes “Boys Rude”, agora “Boys & Girls Rude” No entanto, a presença acachapante da extrema-direita no confuso governo de coalização atual estimula manifestações racistas no esporte, não apenas dos torcedores.

Em uma rodada recente, o senegalês Koulibaly, jogador do Napoli, um dos melhores zagueiros do mundo, diante das manifestações racistas da torcida da Internazionale, se rebelou, denunciando a arbitragem o que ocorria. O árbitro expulsou Koulibaly por ousar reclamar. A Federação Italiana o suspendeu o jogador por dois jogos. Comentando o ocorrido, Mateo Salvini, Ministro do Interior e vice Premiê, líder máximo da extrema-direita italiana e figura forte do governo, declarou:

“A questão da suspensão do jogo por causa de insultos é muito escorregadia. É difícil encontrar um critério objetivo. Pessoalmente, concordo com a decisão de não suspender o Inter x Napoli. (…) Eu me lembro que estava no estádio durante o Juventus x Milan. As constantes vaias eram para Bonucci, que é muito branco, muito bom e muito belo, mas que mudou de clube duas ou três vezes. Então, quem decide se isso é discriminação? Se isso é vulgar? A violência não deveria existir e farei de tudo para erradicá-la, mas precisamos de critérios objetivos e acho que é difícil de interpretar neste caso. Não podemos confundir o racismo, que precisa ser condenado, com a beleza do futebol, que também é sobre rivalidade”

Salvini foi quem recebeu Battisti no aeroporto. Essa é a República da Itália, essa é “a cara da Europa”, como definiu a revista Time.

A torcida de extrema-direita da Lazio traz no nome a intransigência dos ideias nacionalistas, racistas e sexistas, os “Irredutíveis”. Por outro lado, a esquerda se mostra cada vez mais redutível, apoiando a entrega da cabeça de Battisti em uma bandeja de prata, seja como fez Evo Morales, como fez a esquerda italiana, exemplificada nos textos do Mino Carta sobre o assunto, ou como se silenciaram os partidos de esquerda no Brasil, em um esforço de bom-mocismo, cujo prêmio é se submeter cada vez mais. Longe de ser irredutível, a esquerda, buscando o centro e a contemporização, acaba por ser irrelevante, tanto na Itália quanto no Brasil.

O Napoli e os napolitanos afirmaram que serão irredutíveis em uma próxima manifestação racista contra os atletas e/ou torcedores: abandonarão o campo. E que venham as consequências! O Napoli mostra que conhece bem a história do jogo que disputa.

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