O autoritarismo liberal no aceno ao PT: a Globo não perdoa é a democratização

Por Luã Reis

Um porta-voz dos donos do Grupo Globo, Ascânio Seleme, publicou uma coluna intitulada: “É hora de perdoar o PT”. Um texto cínico até para o padrão Globo de jornalismo. O perdão e a autorização ao retorno do partido ao debate político dependeria do aceite de uma condição prévia: romper com “a índole autoritária que um dia foi semeada no coração do PT e vicejou”. Essa ultrapassagem do autoritarismo enraizado seria o grande desafio do partido para a expiação.

Mas qual seriam os elementos do autoritarismo petista?

O texto então cita alguns, afinal, os “exemplos são muitos”: “como a tentativa de censurar a imprensa através de um certo ‘controle externo da mídia’, de substituir a Justiça por ‘instrumentos de mediação’ em casos de agressão aos direitos humanos, ou de trocar a gestão administrativa por ‘conselhos populares’.”

A “índole autoritária no coração do PT” então seria as propostas de consultas à sociedade civil em conferências, as formas inovadoras de justiça, os conselhos populares e uma regulação dos espectro dos meios de comunicação.

Como é possível que a ampliação da participação popular na esfera política seja autoritária?

O “controle externo da mídia” existe em todos os países da Europa e nos EUA. A propriedade dos meios de comunicação eletrônicos é limitada e firmemente controlada na França, na Inglaterra, nos EUA, na Austrália, no Japão e ou em qualquer outro lugar que o Guga Chacra considera exemplo de democracia. Esses lugares não tem um monopólio midiático do tipo Globo porque a democracia impediu. Aliás, não é exatamente um “controle externo” das redes sociais que a Globo apoia agora?

A mediação é um método de solução de conflitos de maneira consensual entre as partes. Uma forma alternativa de justiça que não envolveria o judiciário majoritariamente branco, elitista e conservador. Recentemente, a Globo assumiu uma postura antirracista, mas qualquer proposta que combata o racismo estrutural do judiciário brasileiro é “autoritarismo”.

Definir os “conselhos populares” como “autoritários” tem um problema inusitado: a Constituição define expressamente a participação da sociedade no desenho, implementação e controle social das políticas públicas. Como pronunciado quando a Constituição foi promulgada em 1988:

“É o clarim da soberania popular e direta, tocando no umbral da Constituição, para ordenar o avanço no campo das necessidades sociais. O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador, habilitado a rejeitar pelo referendo projetos aprovados pelo parlamento. A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos Cidadãos.” Essa declaração é Ulysses Guimarães, agora revelado como também um “autoritário”.

O padrão Globo de autoritarismo portanto é a inclusão e a amplificação da sociedade nos processos políticos. Essa dado é fundamental para a compreensão da linha editorial da mídia corporativa brasileira. Quando os jornais publicam que, por exemplo, Cuba e Venezuela são regimes autoritários, nada tem a ver com violência ou arbitrariedade. A participação popular nos processos políticos é o que tornam Cuba e a Venezuela países “autoritários”.

Nas comunas venezuelanas, a população de determinada localidade pobre organiza a demanda de máscaras e itens básicos para a proteção durante pandemia. O Estado responde ao pedido e entrega diretamente a população. Essa forma de organização popular da cidadania é autoritarismo.

Democracia é a população nas favelas brasileiras morrer entregue à própria sorte.

Se o congresso entrega a água para multinacionais, obrigando a população a pagar muito mais caro pela água, isso é democracia. Uma proposta que se ouça a sociedade sobre o assunto, bem isso já é autoritarismo. Se um jovem preso com 10g de maconha morre na cadeia, é democracia, uma alternativa que não o encarcerasse, seria autoritária.

“Guerra é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é força” era o lema do “Grande Irmão” no livro “1984” distopia de George Orwell, sempre citados por liberais nas críticas aos regimes socialistas. Mas os Estados liberais que se apresentam como inquestionáveis e imutáveis, no qual as camadas populares devem ter fé nos desígnios de uma elite tecnocrata que define o que é liberdade e o que é democracia.

Portanto, para ser novamente “integrado”, o PT tem que se livrar, democraticamente, daqueles que não pensam como a Globo, guardiã máxima dos credo liberal no Brasil. Essa é a Frente Ampla.

A Globo exemplifica como os preceitos da democracia liberal são sagrados, até mesmo aqueles que procuram ampliar a participação popular dentro desses estreitos limites. Só rezando dentro desse credo é que o PT poderá ser perdoado. Democratização é autoritarismo.

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