O futebol brasileiro tem que parar novamente

Por Iago Morais

Após o primeiro fim de semana de bola rolando em três das quatro divisões do campeonato brasileiro foi possível constatar o óbvio. Os testes positivos para o novo coronavírus de jogadores do Goiás, CSA e Imperatriz-MA não devem ser analisados como uma consequência de ações irresponsáveis desses clubes, por não terem seguido o protocolo de segurança da CBF. O problema central é o protocolo e a CBF. Apenas a testagem dos jogadores não garante que o ambiente desses clubes está seguro para a prática esportiva, sem nenhum risco para a saúde desses atletas. Ontem (11/08/2020) surgiu novos casos no Corinthians e no Atlético Goianiense. Como a CBF vai garantir que todas as pessoas que tiveram contato com esses jogadores não contraíram o vírus? O próprio Corinthians disputou a final do campeonato paulista contra o Palmeiras faz apenas quatro dias.

Parece claro que o protocolo de segurança da CBF que deveria prevenir e bloquear a disseminação do novo coronavírus entre os atletas, está na verdade intensificando o contágio. Alguns meses atrás o atual prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro disse: “Quem já mexeu com futebol sabe que futebol sem público demanda pelo menos uma aglomeração de 300 pessoas.” É uma insanidade que tenhamos torneios que envolvem as cinco regiões de um país com dimensões continentais como é o Brasil, num contexto em que o país está há quase três meses sem um ministro da saúde mesmo com crescimento contínuo do novo coronavírus. O constante deslocamento dos atletas de suas residências para centros de treinamentos, aeroportos, ônibus e estádios não traz nenhuma segurança para a saúde deles e muito menos para a saúde da população.

No âmbito federal a mensagem foi dada: as vidas das pessoas pobres são descartáveis e o genocídio sobre essa população ganhou novos contornos nesses tempos sombrios. Aquilo que anteriormente se desenhava como um ensaio de resistência dos estados sobre o governo federal, não passou de um suspiro de uma democracia que outrora foi reivindicada às custas de muito suor (e sangue) dos trabalhadores e que hoje está em frangalhos. A flexibilização tornou-se a palavra da moda numa parcela da sociedade brasileira que pôde ficar reclusa por alguns meses em seus domicílios. E seja por alinhamento ideológico ou por pressão política e econômica de uma importante parcela da burguesia, o que vemos a nível estadual e municipal é o discurso de governadores e prefeitos que defendem a retomada gradual da economia. É nesse contexto político que o retorno do futebol brasileiro está atrelado.

Quase 39% dos jogadores de futebol no Brasil ganham menos de R$ 1.000 e cerca de 34% recebem entre R$ 1.000 e R$ 3.000 de acordo com uma pesquisa da Folha de São Paulo de 2018. Apenas 3% dos jogadores de futebol no Brasil ganham acima de 51 mil reais. Por conta da queda do faturamento dos clubes, a grande maioria dos atletas profissionais do Brasil perdeu sua principal fonte de renda do primeiro semestre e muitos tiveram que ceder a pressão dos clubes, das federações e das emissoras de TV (plim-plim) para retomarem as suas atividades esportivas. Muito se fala sobre as bolhas de isolamento desenvolvidas pelos principais clubes do país, mas fica o questionamento sobre o restante (e maioria esmagadora) dos pequenos e médios times do Brasil. Como construir essas bolhas se muitos desses clubes mal conseguem pagar suas contas de água e de luz?

A maioria dos jogadores de futebol desse país são pretos e pardos, e grande parte desse contingente recebe baixos salários e está fora do regime de CLT. As duas primeiras divisões do campeonato brasileiro representam um mundo distante para a imensa maioria dos jogadores. Muitos abandonam cedo os estudos para tentarem a tão sonhada estabilidade financeira no mundo da bola, porém são pouquíssimos os que conseguem atingir esse objetivo. Dentro de uma racionalidade completamente esquizofrênica os clubes médios e pequenos recontrataram jogadores as pressas para as disputas de competições estaduais e nacionais, num regime de uberização da atividade esportiva. Esses jogadores assinam contratos de curta duração e dentro da lógica do protocolo de segurança da CBF, eles são descartados e reinseridos aos clubes na medida em que contraem e após um tempo desenvolvem uma imunidade ao vírus. O grande ponto é que a CBF tem falhado sistematicamente no controle do contágio dos atletas profissionais e essa crescente de casos permite realizar duas perguntas fundamentais. No ritmo em que anda atualmente os campeonatos pelo país, quando que teremos o primeiro caso mais grave do novo coronavírus em um jogador de futebol aqui no Brasil? Será que somente quando ocorrer algo mais sério que as autoridades competentes determinarão a paralisação do futebol brasileiro? Esperamos que não deixem chegar nesse ponto, entretanto infelizmente somos tomados pela descrença nesses tempos em que a barbárie é naturalizada.

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/05/jogador-brasileiro-ganha-quatro-salarios-minimos-por-mes-em-media.shtml)

https://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/interior/2020/07/01/noticia_interior,3852878/kalil-questiona-fmf-sobre-volta-do-futebol-e-ironiza-pressa.shtml

https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2020-08/coluna-coronavirus-ja-contaminou-o-campeonato-brasileiro

https://globoesporte.globo.com/rj/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/entre-os-clubes-do-brasileirao-ao-menos-158-jogadores-testaram-positivo-para-coronavirus.ghtml

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