Hoje na História: as massas haitianas lançaram uma luta que fez a Terra mudar as suas bases.

Por P. H. Zamora

Em 22 de agosto de 1791, as massas haitianas lançaram uma luta que fez a Terra mudar as suas bases.

Resistindo à escravidão e à exploração colonial aos milhares em seus quilombos (“kilombo”, do quimbundo, literalmente: “acampamento de guerra”) e suas revoltas, as massas de camponeses sequestrados de África e acorrentados por uma empresa montada pelo capital comercial já conheciam a guerra contra a opressão brutal dos senhores de escravos franceses. Essa longa tradição de lutas, no entanto, se transforma de maneira importante quando se apropria de uma nova linhagem ideológica, vinda do outro lado do mar: o iluminismo radical, aquele mesmo que corta o campo da cultura de Spinoza a Diderot, à “História das duas Índias” do abade Raynal e ao jacobinismo francês. É esse mesmo jacobinismo que se tornará uma arma afiada nas mãos das massas haitianas, jacobinismo que se torna, então, uma demanda universal da luta dos povos oprimidos por uma revolução democrática – jacobinismo negro, como disse C.L.R. James. Que essa apropriação tenha assumido um nome próprio, o do grande Toussaint L’Ouverture, não muda o fato de que ela foi um fenômeno de massas tornado real pela guerra contra a opressão escravista.

O desenvolvimento da Revolução na França teve efeitos diretos na colônia escravista de São Domingos (tão parecida em tantos aspectos com o Brasil). Os senhores de terras e escravos, monarquistas fiéis, eram os dominantes absolutos nessa ordem colonial apodrecida, excluindo do poder político obviamente os pretos escravizados, mas também as classes médias brancas e mestiças ligadas ao comércio. São essas classes médias que, alinhadas ao projeto moderado dos girondinos, primeiro lançam a palavra de ordem da Revolução em São Domingos, reivindicando o reconhecimento de seus direitos civis e políticos, a redução de impostos e o apoio à formação de uma monarquia parlamentar na França, chegando a formar suas próprias guardas civis. As massas escravizadas, ouvindo essa palavra de ordem, entendem que a hora da liberdade chegou. As noites nubladas de agosto no mar do Caribe se iluminam: as nuvens refletem o grande brilho do fogo que engole todas as plantações escravistas do norte de São Domingos. Mais de mil brancos escravistas são mortos pelas massas em revolta.

As classes médias logo pedem moderação e a punição dos escravos rebelados, repetindo a posição escravista de seus líderes girondinos na França. Os liberais girondinos, os Sieyès, os Brissots, com sua cínica “Sociedade dos Amigos dos Negros”, defendem que se evitem os “excessos” e “abusos” da escravidão, mas são abertamente contrários à abolição. Toussaint L’Ouverture, ex-escravo rebelado, então já em armas e se mostrando rapidamente como um grande líder na guerra revolucionária que começa a tomar toda a colônia, vendo o sentido da reação girondina, se alia brevemente aos colonizadores espanhóis para conquistar apoio para a luta da libertação dos escravos na parte francesa da ilha. Para Toussaint, general popular e leitor do iluminismo radical, não há outro caminho que não a guerra pela libertação.

Mas tudo isso muda quando a fase de direção girondina da Revolução Francesa se encerra, quando se torna claro para as massas francesas que a moderação girondina esconde um retorno aos privilégios feudais nos campos e a manutenção da pobreza para os trabalhadores nas cidades, com o controle dos preços dos gêneros de primeira necessidade pela burguesia. Começada a fase radical da Revolução, os jacobinos exigem a abolição imediata, o fim do crime contra a humanidade que é a escravidão e o reconhecimento de São Domingos como parte integrante da República em constituição. A fraternidade cruza os oceanos com a velocidade de um raio: líderes dos jacobinos franceses são mandados a São Domingos para auxiliar na luta revolucionária, delegados dos jacobinos negros de São Domingos são recebidos sob uma chuva de aplausos no Clube dos Jacobinos em Paris, como representantes legítimos na Convenção Nacional. Toussaint, tornando a revolução democrática uma demanda universal, afirma que o caminho de São Domingos não é apenas a abolição, mas a república democrática.

Os jacobinos negros fazem a primeira revolução popular da América Latina e abrem o caminho para todas as outras que seguiram. Mas mais importante: são os jacobinos negros que, fazendo da revolução democrática uma demanda universal, disparam um processo que levaria à abolição da escravidão. Todos os senhores de escravos nas colônias tremeram com a luta revolucionária dos jacobinos negros, com a possibilidade de uma revolução democrática ou de uma grande revolta de escravos. A onda de revoltas de escravos disparada pela Revolução Haitiana foi central para a abolição da escravidão em diversas ilhas do Caribe, os senhores de terras e escravos abolindo a escravidão para manter os regimes coloniais. Mas, ao mesmo tempo, os senhores passam a exigir a abolição nas colônias vizinhas, uma vez que suas mercadorias produzidas com trabalho escravo empurravam os preços para baixo. Esse papel central da luta dos jacobinos haitianos no fim da escravidão é geralmente apagado pela historiografia burguesa, para fazer do fim da escravidão colonial o resultado de uma evolução pacífica do capitalismo.

E, contra os futuros recuos da Revolução, , quando os jacobinos forem traídos pela reação girondina e monarquista, Toussaint afirma que isso tudo, a abolição e a república, será feito mesmo pela independência de São Domingos, mesmo que seja preciso uma guerra de independência geral contra a França. É essa ousadia que levará à prisão de Toussaint pela reação francesa, e é por ela que o Haiti é até hoje punido. Mas as massas haitianas ainda não se esqueceram de sua revolução democrática, e cedo ou tarde farão as classes dominantes da América Latina tremerem mais uma vez.

Viva a grande Revolução Haitiana!
Viva Toussaint L’Ouverture!
Viva a luta dos povos revolucionários da América Latina!

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