O mundo está mudando, mas os americanos reconhecem?

New Western Outlook

Na semana passada, em São Petersburgo, Rússia, foi realizado um dos fóruns econômicos mais importantes dos últimos tempos. Foi o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF). Apesar de estarem presente mais de 170 países em todo o mundo, ele mal atraiu uma menção na grande mídia ocidental.

O fórum proporcionou a oportunidade para uma grande discussão do que poderia ser descrito de forma justa é a nova ordem econômica: a mudança da ênfase econômica do Ocidente, onde prevaleceu nos últimos 200 anos, pelo menos, para o Oriente.

Há muitos sintomas desta mudança fundamental no foco econômico mundial. Um óbvio é o declínio constante do dólar dos Estados Unidos como o meio para o comércio internacional. Isto foi discutido em um dos fóruns da conferência onde a diretora administrativa do FMI, Kristalina Georgieva, a governadora do banco central russo, Elvira Nebiullina, e o ministro das finanças russo, Anton Siluanov, compartilharam um fórum.

Siluanov anunciou que em maio deste ano, pela primeira vez, menos de 50% das exportações da Rússia foram indicadas em dólares dos Estados Unidos. Siluanov anunciou que a Rússia pretendia abandonar totalmente o dólar dos Estados Unidos no fundo de riqueza russo. Isto foi parte de uma grande reestruturação do sistema de câmbio russo.

O papel da libra esterlina também deveria ser reduzido (o que não vai agradar os russos para os britânicos). O papel do euro e do yuan chinês também seria aumentado, com o status do ouro e do iene japonês permanecendo estável. Estas mudanças podem ser vistas como preparação para os dias atuais, que muitos agora vêem como iminentes, quando a Rússia é excluída do sistema financeiro mundial.

Um outro tópico de discussão no SPIEF foi o crescente papel dos chineses na economia da Eurásia. Uma combinação da capacidade técnica chinesa e dos enormes recursos energéticos da Rússia proporcionará a base de um mercado eurasiático que diminuirá progressivamente o papel até então dominante do Ocidente.

Um dos principais fatores que impulsionam a mudança são décadas de abuso de poder por parte dos Estados Unidos como fonte da principal moeda comercial do mundo. Quando o uso desse poder se transformou em abuso, como tem sido manifestamente óbvio nas últimas décadas, ele inevitavelmente produz uma reação. O abandono do dólar pelos russos e chineses é o resultado óbvio do desencanto crescente com décadas de abuso da posição dos Estados Unidos.

O momento da conferência do SPIEF também é notável. Ela ocorreu nos dias anteriores às cúpulas do G7 e da OTAN e duas semanas antes da cúpula de Biden – Putin, prevista para ocorrer em Genebra. O ímpeto para esta cúpula veio de Biden. Juntamente com um abrandamento de alguns pontos de diferença com a Rússia nas últimas semanas, e notavelmente com a retirada da oposição dos Estados Unidos à conclusão do gasoduto que fornece gás russo para a Alemanha e em outros lugares da Europa. Os Estados Unidos têm claramente expectativas de obter ganhos geopolíticos na reunião de Genebra. Com toda probabilidade, será muito pouco, muito tarde.

Os russos estão claramente cientes das tentativas dos Estados Unidos de separá-los da China, sobre a qual os americanos estão concentrando cada vez mais suas antipatias. A parceria Rússia-China se desenvolveu demais para viabilizar qualquer fantasia de uma separação inspirada nos Estados Unidos.

Um exemplo notável da Rússia – China Corporation pode ser visto no papel progressivamente maior que está sendo desempenhado pela Organização de Cooperação de Xangai. A SCO tem atualmente oito estados membros, incluindo, de forma um tanto surpreendente, a cooperação entre Paquistão e Índia em seus interesses mútuos, quatro estados observadores, incluindo, de particular interesse, o Afeganistão, olhando para um futuro pós-Estados Unidos, e seis estados de diálogo. Seus membros abrangem a região eurasiática.

Junto com outros importantes grupos regionais, como o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul e a União Econômica Eurasiática de origem russa, que após um início lento se tornou um órgão sério em 2010 com a implementação da União Aduaneira Eurasiática e a assinatura de um acordo de livre comércio em 2011 por oito países. É notável que existe uma sobreposição de membros destas diferentes organizações. Uma coisa que elas têm em comum é o desejo de um conjunto de acordos não dominados pelo Ocidente para governar suas economias, e cada vez mais outras preocupações.

A perspectiva russa sobre estes desenvolvimentos foi recentemente fornecida pelo Presidente Putin. Em uma ampla discussão sobre futuros desenvolvimentos, Putin traçou um paralelo direto com a União Soviética e os Estados Unidos. Como citado pela Reuters, Putin disse que os Estados Unidos estavam errados ao pensar que é “poderoso o suficiente” para escapar de ameaças a outros países, um erro que, segundo ele, levou à queda da União Soviética.

Putin fez os comentários durante uma reunião no final da sexta-feira, quando falou sobre as sanções dos Estados Unidos contra Moscou, de acordo com a agência de notícias russa Tass. “Ouvimos ameaças do Congresso, de outras fontes”. Isto é feito sob o controle da imprensa política interna dos Estados Unidos” Putin foi citado como tendo dito. “As pessoas que fazem isso, provavelmente assumem que os Estados Unidos têm tal poder econômico, militar e político que podem escapar impunes”. Não é nada de mais, é o que eles pensam”.

Putin disse que tal comportamento o lembrava da União Soviética “o problema com os impérios é que eles pensam que são poderosos o suficiente para cometer tais erros”. Vamos comprar essas pessoas, intimidá-las, fazer um acordo com elas, dar-lhes colares, ameaçá-las com navios de guerra”. E isto vai resolver todos os problemas. Mas os problemas se acumulam. Chega um momento em que eles não podem mais ser resolvidos”.

É este pano de fundo que Putin trará para sua reunião em Genebra com Biden. Não havia motivo para esperar que os russos fizessem concessões significativas aos americanos. Eles vêem claramente este último como um império em declínio. É duvidoso que os americanos tenham uma visão tão clara de seu próprio futuro quanto a de outros.

O mundo está mudando, talvez mais rápido do que Biden aprecia. Se ele e seus conselheiros têm a inteligência para reconhecer o impacto dessas mudanças permanece uma questão em aberto. Seria talvez insensato depositar demasiada confiança na capacidade dos americanos de compreender estas realidades em mudança.

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