COMEÇA UMA DAS OFENSIVAS FINAIS DA GUERRA DA SÍRIA

Luã Reis – Nesse momento, o governo sírio e aliados realizam uma grande ofensiva para retomar o controle total da província de Daraa, no sudeste do país, que desde o início do conflito permanece nas mãos de “rebeldes” do Exército Livre da Síria e dos terroristas do ISIS. Na província, vizinha as Colinas de Golan, ocupadas ilegalmente por Israel desde 1967, os terroristas sempre tiveram liberdade de ação, quando não a cumplicidade explícita e declarada do Estado sionista, como esta página já informou.

A aliança com os terroristas e “rebeldes” contra a Síria em Daraa não se restringe aos israelenses, foi através da fronteira com Jordânia que as hordas salafistas entraram no território sírio, com a equipamentos fornecidos por países da OTAN como a Noruega, Austrália, França, Inglaterra e EUA. A reconquista de Daraa tirará dessa imensa quadrilha internacional o principal ponto de apoio para o bombardeio de civis em Damasco, cujas mortes diárias de inocentes não tem espaço na grande mídia ocidental. Não haverá mais uma fronteira escancarada para a violação do território sírio.

A iminência da derrota em Daraa motivou a visita de Netanyahu à Jordânia, onde foi recebido pela família real e a extremamente pressionada cúpula do governo. Nas últimas semanas grandes manifestações de rua eclodiram no país contra o aumento do preço da gasolina – como ocorre em outras países – se desenvolvendo em protestos pelo fim do regime. Acuado, o Rei Abdullah se viu obrigado a demitir o primeiro-ministro. Em meio a grave crise, a visita surpresa do primeiro-ministro israelense, evidentemente impopular entre a população jordaniana, dá a noção da magnitude da crise que a vitória do Exército Árabe da Síria em Daraa provoca. Afinal, a Jordânia é oficialmente responsável e cuidadora de Jerusalém Oriental, as recentes ações de Trump e Netanyahu destruíram o papel jordaniano na cidade sagrada, o que coloca em cheque o Rei e o próprio regime. Sem a legitimidade de protetor de Jerusalem, em meio a grave crise econômica e política, correndo o sério risco de perder o papel n as ações contra a Síria, o governo jordaniano se verá em dificuldades para preservação do poder, daí a visita surpresa de Netanyahu.

Israel por sua vez tem nos terroristas e “rebeldes” uma espécie de “cordão de segurança” contra a aproximação do Exército Árabe Sírio as Colinas de Golan. As Colinas são território sírio, cujo governo Assad, fortalecido politica e militarmente não se furtará de tentar reconquistar. Se Putin já prometeu aos israelenses que a Força Aérea da Rússia não agirá em Daraa, o mesmo não se pode dizer do Hezbollah nem da Guarda Revolucionária do Irã. Aliás, se Putin não quer confrontar diretamente Israel, tampouco deixará que caças americanos e israelenses alterem o rumo do conflito na Síria. Talvez a promessa de Putin tenha que ser discretamente quebrada. Afinal as próprias baterias anti aéreas posicionadas em Damasco já demonstraram ter condições de desafiar a supremacia sionista nos céus do Levante.

Israel se acostumou a décadas a ser cercado de regimes cúmplices – como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita – ou inimigos fracos, embora estridentes – como o Hamas, o Fatah, o Líbano e a Síria – o que a Guerra na Síria mudou decisivamente. A Síria está muito mais poderosa militarmente que antes do conflito, o Hezbollah, que já impunha derrotas anteriormente, adquiriu experiência e moral, assim como a Guarda Revolucionária do Irã, que agora tem a inédita possibilidade de se alocar junto à fronteira em Golan através de vias terrestres. Daí a inútil gritaria americana e israelense contra o Irã, acusando o país pérsia dos mais diversos crimes, sem nenhuma evidência. Os cães ladram mas a caravana iraniana não vai parar.

Ainda há muitos focos de conflito, no entanto também são possíveis de negociação. Ao norte do país a Turquia ocupou o cantão de Afrin, protegendo os grupos proxys em Idlib, mas existem conversações para uma retirada acordada envolvendo, além de turcos e sírios, a Rússia e o Irã. Essa resolução complexa também envolve a delicada questão curda que envolve todos os países em questão, mas ocupantes s americanos, franceses e italianos. Mas os curdos já percebem que serão abandonados pelos ocidentais, dispostos a sacrifica-los em nome da aliança com Turquia, logo líderes curdos sinalizam negociar com Damasco. Nessa semana, Washington oficialmente abandonou a ideia de “Assad deve sair”, o que é nada mais do que reconhecimento da realidade em campo. Não há mais “Assad must go” nem haverá “Change Regime”. A retomada de Daraa é marco importante da vitória da Síria. Agora são os outros lados da fronteira que estão ameaçados.

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