AS AMBIGUIDADES DO SULTÃO ERDOGAN: PARA ONDE VAI A TURQUIA?

Luã Reis – As eleições desse domingo reforçaram o poder de Recip Tayyp Erdogan, que já comanda a Turquia há dezesseis anos, desde quando se tornou primeiro-ministro em 2002. Erdogan se consolida como a grande figura do país no seu tempo. Atrás apenas de Ataturk, que fundou a República da Turquia em 1919.

 Prefeito de Istambul em 1994, onde fez um mandato com grande aprovação popular, fazia discursos nacionalistas e islâmicos. Uma combinação peculiar como tantas outras que Erdogan consegue equilibrar.

Erdogan foi preso por um desses discursos, mas tal como Hugo Chávez na Venezuela, a prisão o conduziu ao governo. Como outros países periféricos, a Turquia teve a economia arrasada pelas medidas neoliberais, sempre dependentes de acordos e empréstimos como FMI. As crises de 1994, 1997 e 2001 geraram desemprego, aumento da miséria e alta da inflação. O discurso de apelo popular, mescla de nacionalismo e religião, de Erdogan encontrava respaldado. Para obter sucesso econômico, a base da força, o primeiro-ministro se aproveitou da expansão da economia chinesa mas também da proximidade com a União Europeia.

Entre o leste e o oeste, a Turquia historicamente se inclinou para Europa, a qual é geograficamente marginal, na ponta final do Mar Mediterrâneo europeu. A Turquia tem um acordo aduaneiro com a UE desde 1995, mas uma integração plena exigiria fazer mudanças em um sentido da liberalização do país. Erdogan, tradicionalista, as rejeitou: ora com mais violência, ora com mais polidez: o desejo do première até o final de década de 2010 seria poder entrar no bloco sem fazer nenhuma concessão política, como a pena de morte que foi abolida antes dele chegar ao governo.

O crescimento contínuo a níveis chineses desde que assumiu até a crise de 2008 fez de Erdogan o mais poderoso político turco do seu tempo. Assim, se reeleger inúmeras vezes, conseguir eleger sucessivas maiorias parlamentares, reforçando seu próprio poder, especialmente entre as camadas mais pobres do interior do país. A crise de 2008 e o fracasso da recuperação, apontado pela nova etapa da crise em 2012, aumentou a impopularidade: em 2013, as camadas médias urbanas se levantaram em protestos. Apelando a base, – islâmica, nacionalista e trabalhadora – o já chamado “Sultão” Erdogan resistiu e permaneceu. Em 2015, a tentativa de golpe militar, com apoio velado dos EUA, foi também derrotada. A ilegalidade do movimento golpista, diferente de protestos legítimos, foi o pretexto perfeito para Erdogan expurgar tanto os golpistas quanto os opositores. Em referendo proposto pelo governo ano passado, os turcos votaram pela transformação do sistema político parlamentar para o presidencialismo, cuja o formato tem fortes semelhanças com o modelo brasileiro vigente. No último 24 de junho, o primeiro-ministro se tornou presidente.

Um movimento que guarda semelhanças com o que já fez Vladmir Putin. O relacionamento com a Rússia afirma o caráter ambíguo do Sultão. Em lados opostos na Guerra na Síria, Turquia e Rússia estiveram em pé de guerra após a derrubada do caça russo em 2015 pela aeronáutica turca. A tentativa de golpe foi desarticulada contando com informações fornecidas pelo Serviço Secreto russo, incluindo fortes indícios da participação dos EUA. Posteriormente descobriu-se que o piloto do caça que derrubou a aeronave estava envolvido com o movimento golpista. 

Segundo maior contingente militar da OTAN, as relações de Erdogan são também conflituosas com os EUA. A Turquia se opôs a Guerra do Iraque, mas esteve plenamente envolvida na Guerra da Síria, apoiando tanto os “rebeldes” quanto o ISIS, que contrabandeava petróleo pelo território turco. Erdogan apoia o movimento encabeçado pelos EUA de derrubar Assad a qualquer custo, no entanto não pode tolerar os curdos serem armados pelos aliados. Erdogan tem um estilo mais próximo ao de Trump do que de Obama, mas no momento se aproxima do Irã, da Rússia e da China.

A compreensão do momento é a do poder do Sultão Erdogan. A ambiguidade das ações de Erdogan resulta na necessidade de estar na posição de fazer diferentes manobras, equilibrando entre interesses francamente contraditórios. O principal sentido dos feitos é a manutenção do poder na Turquia. A quem aponta autoritarismo na prática, Erdogan recorre a plebiscitos para referendar decisões; a resposta a acusação de acabar com a democracia é apoio envergonhado, mas firme, que recebe de regimes liberais europeus.

Erdogan traz o sonhos de um renascer da grandeza Otomana, no qual seria ele o Sultão. O neo-otomanismo possível através de uma democracia iliberal, construída sobre o rastro de miséria deixado pelo neoliberalismo. Difícil, portanto, quais serão os próximos movimentos do Sultão, mais é certo que o mundo caminha no sentido para onde ele vai: com regimes híbridos e ambíguos entre a democracia iliberal e o autoritarismo liberal.

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