O PRÉ-SAL, A LAVA JATO, A OPERAÇÃO CHOQUE E PAVOR E O PETRODÓLAR

Por Kissel Goldblum

Em dezembro de 2009, o consulado americano no Rio de Janeiro enviou um extenso telegrama para Washington intitulado “A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”. Este e outros cinco telegramas (publicados pelo WikiLeaks) mostram como uma das atividades mais importantes da embaixada americana no Brasil foi acompanhar o desenvolvimento das regras para a exploração do pré-sal, a fim de  garantir os interesses das petroleiras internacionais no país. Estas mensagens mostraram a insatisfação dessas multinacionais com a lei de exploração aprovada pelo Congresso. O que ocasionou a forte atuação dessas empresas na formação de lobbys junto aos senadores para modificarem a lei. “Eles são os profissionais e nós somos os amadores”, teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo. Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente. Em uma das mensagens dos telegramas, uma diretora da Exxon aparece preocupada porque a “Petrobrás terá todo controle sobre a compra de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos”. O site The Intercept revelou que uma diretora da Chevron escreveu que o governo estava fazendo uso político do novo modelo e exprimiu a necessidade de “recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro”, e acrescentou: “as regras sempre podem mudar depois”.

Serra não foi eleito, todavia, após o Golpe de 2016, o presidente de facto, Michel Temer, colocou Serra como ministro das relações exteriores, e aí, ele começou a cumprir as promessas feitas às petroleiras internacionais. Uma proposta de sua autoria que pretendia acabar com a obrigatoriedade da presença da Petrobrás na exploração do pré-sal foi aprovada no Senado. Em seguida, junto com a base governista orquestrou a aprovação de uma MP que fez o país abrir mão de, inacreditáveis, 1 trilhão em impostos em favor das petrolíferas estrangeiras. Semana passada, com o início das vendas das refinarias da Petrobrás – por um valor realmente ilusório – vemos que este governo só está seguindo a lógica de entreguismo do Golpe de 2016, enquanto o povo assiste bestializado.

Sabemos que não existe um país desenvolvido sem grandes estatais e o caminho para se acabar com a soberania de algum Estado passa pela destruição de suas principais empresas; no entanto, vemos agora, que os planos do Golpe, não eram simplesmente tomar o governo e entregar nossas principais empresas. O plano incluía também a desconstrução de todo e qualquer avanço social do governo passado para impedir, ou pelo menos atrasar muito, a possibilidade do povo se reorganizar para reconquistar o poder. Até a conhecida jornalista, de direita, Míriam Leitão, afirmou que o Bolsonaro “vai encurralando e desmoralizando os órgãos públicos. O que há de comum entre defensoria pública, Ibama, ICMbio, Itamaraty, Inpe, IBGE, Inep, Fiocruz, tantos outros, é que o governo tem tentado impedir que eles façam o seu trabalho. De forma sutil ou ostensiva funcionários são neutralizados”.

Uma operação muito mais enérgica, porém com os mesmos objetivos, aconteceu em 2003 – a Operação Choque e Pavor -, que marcou o início da invasão do Iraque, quando os EUA realizaram, em um mesmo dia, 1.700 ataques aéreos em Bagdá. Além da invasão terrestre com uma coalizão internacional formada com 148 mil soldados americanos, 45 mil do Reino Unido, 2 mil da Austrália. Toda a estrutura do país foi afetada. O governo do Iraque foi substituído por um governo fantoche dos americanos e, resumidamente, em 5 anos o país estava um caos. Aqui, após cinco anos da Operação Lava Jato, o Brasil está se encaminhando para o mesmo resultado que a Operação Choque e Pavor teve no Iraque. Há cada dia que passa, o presidente eleito Jair Bolsonaro revela a desconstrução de uma nova base institucional fundamental para o desenvolvimento do Estado soberano. 

Como operações financiadas e orquestradas pelo imperialismo, a Operação Lava jato, no Brasil, e a Operação Choque e Pavor, no Iraque, tinham o mesmo objetivo: acabar com as possibilidades dos dois Estados se manterem sozinhos, ou seja, acabar com a soberania nacional. A diferença só está nos meios utilizados, enquanto no Iraque houve uma declaração de guerra aberta, no Brasil e na América Latina, o imperialismo não nos atacou com 1700 mísseis, mas instituiu um novo modo de guerrear: a Guerra Híbrida. Cuja principal arma é o lawfare, e a busca constante pela anulação constituições e leis nacionais. Uma guerra mais demorada, no entanto, com efeitos destrutivos tão grandes ou maiores que de uma guerra tradicional.  

Após 5 anos de Lava jato, tivemos mais de 2 milhões de desempregos diretamente relacionados com a operação. Os EUA, praticamente, apropriaram-se da Embraer e do pré-sal e visam adquirir outras estatais. Em 2013, a Petrobras tinha mais de 446 mil funcionários. Após o Golpe de 2016, a estatal já contava com apenas 186 mil (uma redução de 58%). O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), afirma que, em 2018, houve uma redução de 5 mil empregos em estaleiros na comparação com o ano anterior. 4 anos após se ver envolvida na Lava Jato, Odebrecht perdeu cerca de 80% [!] do quadro de funcionários. E a lista segue. 

Tanto no Iraque, quanto no Brasil, as invasões norte-americana estão relacionadas com a necessidade constante dos EUA de conservarem o monopólio do petróleo para a consequente conservação do petro-dólar como lastro global da economia. No entanto, o desenvolvimento e fortalecimento de governos que apoiam uma mudança na estrutura da economia e do mercado mundial, no sentido da construção de uma estrutura multipolar de governo, em detrimento da estrutura unipolar, tal qual existe hoje, encabeçados pelo BRICS – que mesmo após o evidente desalinhamento do Brasil com o projeto, em decorrência do Golpe de 2016 -, está mais forte do que nunca, principalmente, em decorrência do nível de amadurecimento das economias chinesa e russa. 

Sendo assim, vemos que o curso atual de nossa história já não oferece mais nenhuma possibilidade de reconciliação com o passado de alianças que fizemos com nossos opressores. O futuro só será livre quando atingirmos um estado de maturidade e seriedade capaz de nos elevarmos à uma consciência histórica, e neste sentido, à uma consciência de classes. A queda do governo Bolsonaro, o fim da Lava Jato e a condenação de seus responsáveis, a retomada do pré-sal, e de nossa soberania nacional, serão também parte da derrota do imperialismo e da influência do petro-dólar no mundo, ou não haverá conquista alguma.    

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