Multilateralismo e o mundo pós-pandemia

A incapacidade dos governos do Ocidente frente à pandemia parece acelerar a já iniciada transição dos polos econômicos para o Leste global. China, Rússia e Cuba se destacam nas políticas de combate ao coronavírus e cooperação médica internacional, enquanto Washington contrabandeia máscaras respiratórias. A crise expôs uma nova rachadura na União Europeia, desta vez pela possibilidade de saída da Itália. Na França, um fragilizado Emanuel Macron admite que o plano não deu certo; ao que parece, reduzir o mundo inteiro a mercadorias talvez não seja o modelo econômico mais sustentável.

As Américas estão agora no olho da tempestade. O lobby farmacêutico e a indústria dos planos de saúde privados se instalaram como um vírus no investimento público de saúde dos Estados Unidos e logo se espalharam às dependentes economias do Terceiro Mundo. Após décadas de corrosão, empilhamos corpos e cavamos covas coletivas nas últimas semanas. Não por acaso, o Partido Democrata teve de retroceder e o único político abertamente contra o Big Pharma e a indústria bélica, Bernie Sanders, teve sua campanha presidencial encerrada oficialmente.

À beira do colapso econômico, Donald Trump e seu correspondente ao Sul, Jair Bolsonaro, convocam seus seguidores contra os estados e acirram a tensão social nas maiores economias da América. Desempregados, motoristas, entregadores, enfermeiros e funcionários de gigantes como a Amazon lideraram as primeiras manifestações durante a crise, sinalizando um possível movimento de massas dos Estados Unidos, o primeiro no século XXI.

Na periferia do capitalismo, a desigualdade acentua os efeitos da pandemia: desemprego, escalada na concentração de renda, milhões abandonados nas ruas ou espremidos nos presídios. Enfermeiros e profissionais da saúde já paralisaram os atendimentos e realizaram protestos devido à falta de equipamentos no Quênia, Paquistão e Costa do Marfim.  Trabalhadores, refugiados e a população carcerária também organizaram protestos na Itália, Alemanha e Palestina.

Aos isolados e expostos, a pandemia se mostra como grande marco civilizatório do início desse século. Para os 0,03% de bilionários no planeta a crise só fez expandir os lucros. As sociedades e movimentos sociais, ainda a reboque do patronato e da mídia corporativa, hesitam, mas já dão os primeiros passos rumo a alguma forma de organização. Se existe a possibilidade de um mundo pós-pandemia onde Elon Musk, Bill Gates e George Soros não emerjam como força motriz na reconstrução da economia global, a resposta pode estar numa das rotas comerciais mais antigas do mundo.

Em 2013, a China anunciou um plano de desenvolvimento global que já tem o apoio de quase 70 países na Ásia, África e Europa. Investimentos massivos em infraestrutura e logística, além de serviços de saúde públicos e gratuitos, estão entre as principais prerrogativas da “Nova Rota da Seda”. O objetivo é redesenhar o comércio e desenvolvimento, principalmente nos pauperizados países da África, Ásia e Leste Europeu, sem comprometer à soberania e governança das nações envolvidas. As transações econômicas são realizadas nas moedas locais, extinguindo o ciclo de endividamento e dependência do Terceiro Mundo em relação ao petrodólar, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Não à toa, um grande esforço se concentra na propagação de notícias falsas envolvendo ‘comunavírus’, sopas de morcego e o Partido Comunista Chinês. As nações ocidentais não conseguem, individualmente, representar qualquer antagonismo à China e nem protagonizar um projeto de desenvolvimento multilateral comum. Diante da iminente mudança gravitacional da economia, o Ocidente aposta na guerra ideológica através da criação de consensos.

Na contramão dos fatos, o vazio discurso racista das elites vira a norma e a bandeira de uma espécie de Cruzada contra a História. Ao invés de uma compreensão estratégica da nova conjuntura econômica, o capital, interessado somente na política reacionária de sua própria manutenção, revive um mito familiar ao imaginário ocidental: o cruel invasor vindo do Oriente avançando impiedoso sobre nosso racionalismo democrático. Uma ideia sem a qual o Ocidente, talvez, não consiga imaginar a si mesmo como um todo coeso.

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