RÚSSIA X ARÁBIA SAUDITA: O JOGO GEOPOLÍTICO

Luã Reis – O jogo que dá o ponta-pé inicial Copa do Munda da Rússia tem tudo para ser uma das piores aberturas da história do torneio. A partida, no entanto, representa mais um duelo entre duas nações protagonistas das disputas recentes na política internacional.

Distantes do topo do ranking da FIFA, russos e sauditas estão entre os líderes na produção e reservas de petróleo. Nas últimas semanas, diante do aumento do preço do barril, as duas nações discutem qual deve ser o patamar da produção e em qual valor deve estar. A Arábia Saudita pretende aumentar a produção para diminuir um pouco do preço, temendo que com o valor atual haja uma queda no consumo. Os russos, por sua vez, estão satisfeitos com a situação atual. A Rússia, diferente dos sauditas, conta também com imensa produção de gás, assim pode estabilizar o preço, sabendo que se optarem por uma alternativa ao petróleo, os clientes, a maioria europeus, mas também chineses, coreanos e japoneses, irão para o gás, que a beneficia.

No campo político, há uma série de situações que colocam os dois países em lados diferentes. O mais evidente é a guerra na Síria. Desde o início dos confrontos, Riad apoiou todo tipo de oposição ao governo sírio, incluindo o ISIS e outros grupos que promovem várias modalidade de ataques contra população civil síria. Em 2015, Putin aceitou o pedido de Assad e mandou os caças para defender incialmente o noroeste do país, para em seguida auxiliar na reconquista de praticamente todo o território sírio, o que foi uma imensa derrota para os sauditas.

A doutrina oficial do Reino da Arábia Saudita, o wahabismo, é uma vertente ultra-conservadora e repressora do Islã. Através do financiamento saudita de escolas e clérigos, essa doutrina é difundida pelo mundo, gerando novos grupos violentos e radicalizados, como os que atuam na Síria. A Rússia que tem uma imensa população muçulmana, concentrada no sul do país perto da explosiva Chechênia se preocupa com a disseminação do radicalismo internamente.

Por fim, e mais importante, a Arábia Saudita é o aliado mais fiel dos EUA no Oriente Médio desde os anos 1970, fundamental para a manutenção dos interesses americanos na região. Na mesma altura, o Irã se tornou o principal opositor dos americanos, o que conduziu a uma rivalidade beligerante entre as duas grandes nações da região, além de uma série de outros fatores políticos, econômicos, culturais e religiosos. Nos últimos anos, o russos e iranianos se aproximaram, especialmente na Síria, mas também em planos de cooperação política e econômica na Eurásia.

Esse breve recorte de alguns aspectos da complexas relações poderia indicar que as nações que abrem a Copa do Mundo são grandes inimigas, na imanência de uma guerra. A geopolítica, no entanto, é mais sutil. Rússia e Arábia Saudita cooperam em diversas áreas, além do petróleo: recentemente os sauditas compraram armas russas, além de manterem trocas em diversos setores como alimentício e industrial. Sempre tendo por trás o respaldo do grande comprador de petróleo dos dois, a China. Afinal são todos asiáticos. Pode-se dizer, que os russos pretendem que a Arábia saia da submissão aos EUA, enquanto os sauditas querem que a Rússia não seja o respaldo ao regime iraniano.

A complexa relação entre os estreantes da Copa do Mundo de 2018 mostra que o protagonismo da geopolítica avança no sentido da multipolaridade. Novos times estão em campo. Estão todos jogando o grande jogo da política internacional. Talvez o jogo de abertura possa ser interessante.

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