A MISTURA – POLÍTICA – DO BRASIL COM O EGITO NA MORTE DE MOSRI E NA PRISÃO DE LULA

Por Luã Reis

A morte de Mohammed Mosri, ainda mal explicada, é mais um capítulo dramático na política egípcia. O falecimento do primeiro e único presidente democraticamente eleito no mais populoso país árabe é mais uma pá de cal na chamada “primavera árabe”. Para além do Oriente Médio, a trajetória de Mosri e os acontecimentos dessa década no Egito refletem desenvolvimentos políticos semelhantes por todo o Sul Global, os países na mira da ação imperialista.

A flor verdadeiramente revolucionária que brotou na Tunísia no fim de 2010 se espalhou rapidamente pelo norte da África em 2011, em seguida pela Península Arábica e Levante. Mas nem tudo seriam flores. Os legítimos protestos, manifestando anseios democráticos, a busca por sociedades mais igualitárias e livres, foram instrumentalizados pelas potências imperiais e vassalos locais, logo transformados em mais repressão e violência contra as populações – com algumas notáveis exceção.

No Egito, na mítica Praça Tahrir, ecoava o grito de que o “povo quer a queda do regime”, pedindo o fim do governo Hosni Mubarak, de perfil neoliberal e autoritário, no poder desde 1981. Em fevereiro de 2011, Mubarak, acuado pela pressão popular, abandonado pelo governo dos EUA e pelos militares, por fim caiu. O Conselho Supremo das Forças Armadas assumiu o poder, convocando eleições e uma assembleia constituinte. Ambos os pleitos foram dominados pelo Partido da Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, associação político-religiosa fundada no Egito nos anos 20, única organização popular e nacionalmente abrangente. Em 2012, um dos líderes da Irmandade, Mohammed Mosri, foi eleito presidente do Egito, o primeiro escolhido diretamente com voto universal na milenar história do país.

A posse de Mosri não pacificou o país, pelo contrário. A Suprema Corte do Egito suprimia os poderes do presidente, que, por sua vez, tentava impor um governo de perfil islâmico suave, aos moldes de Erdogan na Turquia ou do Catar. Protestos da sociedade civil com apoio e convocações dos militares voltaram a ocupar às ruas do país. Em julho de 2013, um golpe militar depôs e prende Mosri, a Irmandade foi banida da vida política do país, milhares de membros foram mortos e presos. A brevíssima experiência democrática do Egito chegava ao fim.

Desde então, o Egito é governado por uma junta militar golpista, a serviço dos EUA, Israel e da Arábia Saudita que suprime os direitos sociais e as liberdades políticas e individuais da população. O simulacro de eleições tentar passar um verniz democrático, que não engana nem os mais fanáticos sionistas jornalistas brasileiros, mas esbarra nas prisões arbitrárias de líderes da oposição, proibição de partidos e manobras judiciais contra partidos, ativistas e lideranças independentes, além de massacres contra organizações populares.

Legítimos protestos populares que pouco tempo depois foram instrumentalizadas, transmutadas em manifestações golpistas. Um golpe contra um presidente democraticamente eleito. Perseguição judicial contra líderes da oposição. Eleições fraudulentas que legitimam um golpe. Conhecemos muito bem esse cenário por aqui. 

As jornadas de janeiro e fevereiro de 2011 no Egito se equiparam aos protestos no Brasil em 2013, nas quais as populações se levantaram contra problemas sociais: no país africano, pedindo a “queda do regime”; no sul-americano, contra o tarifaço nos transporte, em um contexto mais amplo de exigência de melhores serviços públicos. 

Nos protestos do Brasil em 2013, se ouviu “não é a Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia”. Se na métrica da rima não coube especificamente a menção ao país árabe, evidenciava a influência e inspiração das mobilizações internacionais, da qual o Egito era um dos protagonistas naquele momento.

Mas também no Egito era possível encontrar menções a política brasileira. Segundo relata Alexandra Lucas Coelho em Tahrir – Os dias da Revolução no Egito , entre as referências políticas dos manifestantes na Praça Tahrir o nome de Lula estava entre os mais citados, juntamente com o líder turco Erdogan. O crescimento econômico da Era Lula aliada com a ascensão das classes populares em um ambiente plenamente democrático, com liberdades políticas e individuais, sintetizava muito das aspirações do povo egípcio. Tanto que o candidato presidencial Ahmed Shafik, nas eleições em 2012, se comparava ao presidente brasileiro na campanha, prometendo um governo nas mesmas bases.  

No entanto, foi Mosri que ocupou papel equivalente a Lula: ambos, nos respectivos países, líderes dos maiores partidos, apoiados em organizações populares, fazendo governos reformistas em amplas alianças. Em um cenário de crise política, os dois sofreram golpes, foram perseguidos em um conluio entre potências estrangeiras com seus representantes locais jurídicos e militares. Mosri e Lula então foram presos, sofrendo todo tipo de abusos na prisão, em conjunto de arbitrariedades que não pouparam os familiares dos presidentes. 

Na primeira entrevista no cárcere de Curitiba, Lula menciona a história política egípcia no contexto da “Primavera Árabe”: “O que foi a Primavera Árabe? Aquela loucura. Eu fiquei muito feliz quando derrubaram o [Hosni] Mubarak [no Egito]. Porque conheci ele bem. E o Obama tinha acabado de ir lá fazer um discurso. Aí elegem o [Mohamed] Morsi. Com três meses, derrubam o Morsi. E quem tá governando? Uma junta militar. E não tem mais nenhuma manifestação na rua.”

Agora, a velocidade dos acontecimentos se revela fatalmente mais dura sobre o presidente egípcio golpeado do que sobre o presidente brasileiro injustamente encarcerado. Pode-se dizer que a situação política no Egito antecipou a do Brasil. Portanto, não se deve descartar uma espécie de “saída egípcia” para a crise política brasileira: um golpe militar aberto com um endurecimento do regime. Essa mistura política do Brasil com o Egito, no entanto, pode ser evitada, principalmente se os atores políticos brasileiros observarem o caso de Mosri e do regime egípcio. Afinal, o que acontece no Brasil e no Egito extrapolam as fronteiras nacionais, influenciando o destino de todo o Sul do planeta.

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