A BATALHA POR EL DORADO: INTRODUÇÃO [Parte 1]

Por Victor Pitanga

 “Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; (…) Águas são muitas; infinitas.” – Pero Vaz de Caminha, Carta a el-Rei Dom Manoel sobre o achamento do Brasil, 1500.

Antes de Colombo encontrar as Bahamas em 1492, o francês Jean Cousier já reivindicava ter descoberto o Novo Mundo em 1488.

Cabral desembarca em Porto Seguro em 1500, um mês depois do espanhol Vicente Yáñez Pinzón chegar em Pernambuco.

Em 1550, Villegaignon lideraria a frota de colonos da França Antártica, colônia francesa na costa do Rio de Janeiro. O continente, já dividido anteriormente entre espanhóis e portugueses, seria alvo ainda das incursões de holandeses e ingleses.  

A história de uma colônia é a história de uma sucursal do capital estrangeiro; explorando terras, saqueando povos, buscando satisfazer um mercado que demanda cada vez mais. Açúcar, ouro, cacau, pimenta, cravo, baunilha, castanhas, juta, copaíba, urucum e, posteriormente, a borracha; moveram colonos, contrabandistas, piratas, garimpeiros, investidores e missionários das abarrotadas metrópoles europeias ao coração da maior floresta tropical do mundo.

O interesse e a cobiça da Europa na região entre os rios Orinoco, Amazonas e Negro tem seu primeiro registro oficial em janeiro de 1648, no Tratado de Münster, que delegou à Holanda (ainda sob domínio espanhol) a exploração e posse da costa e do delta dos rios. Fora dos registros, está a verdadeira história da colonização: genocídio, silêncio, progresso e propaganda.

Motivo de guerra entre holandeses e ingleses, mais tarde, entre brasileiros e portugueses, a região sempre teve sua soberania questionada. O resultado: o continente partido em dois ganhou duas Guianas e um Suriname. De uma forma ou outra, A Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, os corsários ingleses, os missionários norte-americanos, os cientistas, naturalistas e ambientalistas europeus acabam por desempenhar um papel fundamental, e muito semelhante, na questão: mapear recursos naturais, monitorar atividade humana, fortalecer e organizar o tráfico de matéria prima e, consequentemente, garantir os interesses da sede.

Apesar do reconhecimento institucional das fronteiras nacionais na região, revisto em 1962, a área ainda é alvo de incursões europeias e estadunidenses, na busca do controle e exploração dos recursos hidrominerais, terra para agropecuária, madeira, entre outros.

A intervenção estrangeira é repaginada sob diversas justificativas, adequadas ao contexto sócio-político que se desenha.

Como resultado, há mais de 400 anos, indígenas e povos da floresta têm sua autodeterminação e seus direitos básicos a terra, vida e autonomia, negados às custas da expansão do mercado estrangeiro.

A disputa, que se estende desde o século XVI, não teve desfecho permanente com a independência e reconhecimento dos países sul-americanos como estados soberanos. Na verdade, com a partilha do mundo pós-Segunda Guerra e o subsequente surgimento da doutrina Monroe, a Amazônia – como tudo a oeste do Atlântico – passou a ser área de influência dos Estados Unidos.

O ‘fim’ do colonialismo, portanto, não resultou no fim da intervenção estrangeira, mas sim, no fortalecimento de mais um concorrente reivindicando seu quinhão.

Nessa série, vamos mostrar as diferentes faces e contornos da exploração capitalista no ecossistema amazônico sob todas as narrativas temporais e discursos ideológicos: desenvolvimento científico e preservação das espécies nativas e em extinção, segurança nacional e proteção das fronteiras, proteção dos indígenas e povos da floresta.

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