Por que os principais jogadores do futebol brasileiro não estão nas ruas contra o racismo?

Por Iago Morais

É notório observar o engajamento dos principais atletas da NBA (principalmente os negros) nos protestos que sacudiram os Estados Unidos após o assassinato de George Floyd por um policial branco. Karl-Anthony Towns é o principal jogador do Minnesota Timberwolves a 5 anos e foi para as ruas da cidade no meio de um luto (sua mãe morreu de Covid-19 em abril). Jaylen Brown dirigiu por 15 horas de Boston a Atlanta para se juntar aos protestos em sua região natal. O grego Giannis Antetokounmpo tem marchado nas ruas de Milwaukee e Damian Lillard marca presença constante nas ruas de Portland. Lebron James é tão ativo nas redes que mesmo não estando nas ruas, ele acaba impulsionando toda uma legião de jovens a protestar no meio de uma pandemia. Além disso a NBPA (sindicato de jogadores de basquete dos Estados Unidos) tem se posicionado de forma veemente contra as injustiças sociais e o abuso de poder dos policiais estadunidenses.

Lebron James

Quando nos deparamos com os protestos antirracistas que estão ocorrendo em diversas cidades brasileiras, nós ainda não vimos esse tipo engajamento dos nossos principais desportistas. Nós podemos observar em geral, algumas declarações mais tímidas em redes sociais, com as hashtags do Black Lives Matter e Blackout Tuesday sendo ecoadas. No meio futebolístico algumas exceções devem ser citadas. Lucas Santos que é meia do Vasco da Gama, o lateral direito Igor Julião do Fluminense e o atacante Paulinho do Bayer Leverkusen, buscam promover uma conscientização dos seus seguidores nas suas respectivas redes sociais. Entretanto essas ações são extremamente tímidas quando observamos a falta de posicionamento (e ação) da categoria como um todo.

Esse texto não pretende realizar um julgamento raso em que afirma que os jogadores da NBA são moralmente superiores que os atletas brasileiros por conta desse engajamento. As diferenças entre as formas como o racismo atua nos países ocidentais do atlântico norte e nos países do sul global não podem ser descartadas. A militarização do espaço público e a vigilância ditatorial da vida privada é algo que atravessou diversos territórios do sul global no século XX. O Brasil não passou imune por esse processo e muito menos o futebol. O intuito desse texto é despertar uma provocação sobre os motivos que nos leva a observar as diferenças entre as possibilidades de manifestação sem sofrer represálias na vida pessoal e profissional, comparando os atletas da NBA com aquelas que estão a serviço da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

A CBF (antiga CBD) sempre possuiu forte ligação com a ditadura civil-militar (1964-85) e por consequência desse laço, vários atletas e treinadores foram perseguidos durante o período por demonstrarem um pensamento que se opunha ao regime implementado no Brasil. Era comum a presença de militares nas comissões técnicas de clubes e da seleção. O jornalista, militante do PCB e treinador João Saldanha foi demitido em 1969 por supostamente não convocar jogadores indicados por Médici para a seleção brasileira. O atacante Reinaldo do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira, foi afastado após o segundo jogo da Copa do Mundo de 1978, pois comemorou um gol com o punho cerrado característico dos Panteras Negras. Ele já afirmou inclusive que recebeu uma carta em espanhol na concentração da seleção, com informações do acidente de carro do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Ele conclui que por isso desconfiou que estava no radar da Operação Condor. O histórico jogador do Botafogo, o atacante Afonsinho sofreu com a perseguição política da ditadura que o impediu de jogar futebol e por conta dos protestos que reivindicavam o passe livre dos jogadores de futebol. Um dos líderes da Democracia Corinthiana e importante militante político pela redemocratização, o lendário Sócrates se transferiu para a Itália após a Emenda Dante de Oliveira não ter sido aprovada no congresso nacional em 1984. Por causa dessas atitudes ele chegou a ser fichado pelo DOPS. Não podemos deixar destacar o uso do título da Copa de 1970 como propaganda política da ditadura. Todos esses fatores contribuíram muito para a disseminação de ditados populares no Brasil como o famoso “futebol, política e religião não se misturam” que favorecem constantemente o silenciamento dos jogadores.

Brasil, Rio de janeiro, RJ. 28/04/1970. O Presidente Garrastazu Medici recebe a seleção brasileira antes da partida da equipa para a Copa do México em 70.

Enquanto esses fatos ocorriam no Brasil, a NBA tornava-se cada vez mais popular nos EUA, principalmente a partir dos anos 80. Os embates entre Larry Bird e Magic Johnson popularizaram o esporte, atraindo cada vez mais público para os jogos e audiência nas transmissões. Com a ascensão meteórica de Michael Jordan, a NBA tornou-se uma verdadeira febre que se alastrou para fora das fronteiras estadunidenses. Tudo que é relacionado a ele era extremamente lucrativo, como os famosos tênis Air Jordan, as camisetas, short e bonés. Além de um astro do basquete, Michael Jordan virou um ícone da cultura pop, extrapolando o basquete e alcançando até o cinema americano. E por que falar de Michael Jordan é tão importante? Por que nos anos 80 a sociedade americana escolheu um homem negro como seu maior ídolo esportivo e o mercado rapidamente percebeu como isso era lucrativo. A imagem da NBA atrelada ao homem negro foi se consolidando de tal forma que hoje tornou-se praticamente indissociável. A popularização da imagem do Michael Jordan provocou a popularização da NBA. De maneira indireta a popularização da NBA fortaleceu economicamente e politicamente diversos outros atletas da liga (majoritariamente negra). Desde os anos 90 já ocorreram quatro paralisações na NBA por causa de divergências nos acordos salariais com os atletas, sendo que duas (em 1999 e 2011) afetaram o calendário e trouxeram prejuízos para a liga. Nos últimos anos os jogadores ganharam cada vez mais protagonismo nas decisões de cada time, seja na montagem dos times, nas formações em quadra e nas negociações dos contratos. Não podemos deixar de destacar que o sindicato de jogadores de basquete dos Estados Unidos existe desde 1954.

O vínculo do futebol brasileiro com a ditadura deixou marcas que visivelmente não foram curadas com o tempo. Muitos dos diretores de futebol, presidentes de clubes, diretores e presidentes das confederações estaduais e da própria CBF, consolidaram seu poder político durante a ditadura e permaneceram nos seus cargos por décadas, sendo que muitos ainda estão ativos e influenciam diretamente os bastidores dessas instituições. Esse ambiente está longe de ser o mais favorável para o posicionamento político de atletas profissionais. Num caminho oposto, a NBA foi uma das organizações que abriram caminho para mercantilização da imagem do homem negro no mundo contemporâneo. Seja através do silenciamento, ou na mercantilização da sua imagem, quem perde sempre é o negro, que sempre está atrelado a adjetivos que não dão conta da sua existência. Seja em regimes ditatoriais autoritários, ou na democracia burguesa (que também é autoritária). Talvez isso explique um pouco por que Karl-Anthony Towns está nas ruas de Minnesota e o Gabigol não está presente nas ruas do Rio. E isso não é uma crítica pessoal para o camisa nove do Flamengo.

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