Entre feriados e estátuas, a submissão de Bolsonaro e a colonização do Brasil

Por Luã Reis

Um outro patamar de submissão

No último dia 04, Bolsonaro comemorou um feriado nacional dos EUA, o dia da independência. Junto com outros membros do governo, das várias “alas”, fez a festa na Embaixada dos EUA. Antes de receber a comitiva de funcionários, o novo embaixador americano, Todd Chapman, fantasiado de cowboy, foi entrevistado na GNews, celebrando o novo estágio das relações entre os dois países.

Bolsonaro se lambuzou comendo um churrasco à moda do centro-oeste americano, contou alegremente em uma rede social.

Brasileiros são deportados diariamente dos EUA. Na maioria das vezes algemados. Nos campos de concentração americanos para imigrantes, o ICE, há um enorme número de brasileiros, presos sem terem cometido crime algum.

Em compensação, Bolsonaro abriu as portas do Brasil para os americanos, que podem circular livremente, sem visto ou qualquer tipo de regulação da entrada. Nem precisam limpar as botas.

O Brasil faz parte da América Latina, por mais que os bolsonaristas não gostem. Em mais de uma oportunidade, Donald Trump afirmou que os latinos são “criminosos” e a “escória”.

Trump e o monte que pariu um rato

Na véspera do feriado americano, Trump discursou na Dakota do Sul, no centro-oeste dos EUA, em frente ao Monte Rushmore, não por acaso a mais emblemática estátua dos EUA. O monte é um local sagrado para o americanismo.  

Enquanto a cosmopolita e francesa Estátua da Liberdade em Nova York em um porto, olhando para o mar, recebe os imigrantes; os rostos presidenciais no Monte Rushmore, com traços retos, olham para dentro do continente.  

A escolha dessa montanha para as estátuas dos “pais fundadores” não foi ao acaso. A montaha era sagrada para as tribos do povo Sioux que a conheciam como “Seis Avôs”. Outras nações dos povos originários também a referenciavam. O escultor, Gutzon Borglum, sabia disso e por isso mesmo escolheu essa montanha. Borglum era membro da Ku Klux Klan, que ajudou na construção desse símbolo nacional.

Ao pé do monte, declarou o líder da extrema-direita: “Multidões raivosas estão tentando demolir estátuas de nossos fundadores, desfigurando nossos memoriais mais sagrados e desencadeando uma onda de crimes violentos em nossas cidades.”

Trump evidencia que, no debate sobre a permanência ou queda das estátuas está, a disputa pela identidade nacional. A queda de um monumento abre espaço para que outro seja erguido no seu lugar e, com isso, uma outra ideia de nação.  A noção trumpista de identidade nacional é a que foi concebida pelos supremacistas, conquistadores e escravocratas dessas estátuas e memoriais sagrados. Essa noção de rocha não aceita contestações e dúvidas.  Aos negros, latinos e indígenas cabem o caminho de lágrimas.

Trump também declarou: “Nossa nação está testemunhando uma campanha impiedosa para acabar com a nossa história, difamar nossos heróis, apagar nossos valores e doutrinar nossos filhos”

Os Sioux, que viram e veem naquele monte a história destruída, os heróis difamados, os valores apagados e os filhos doutrinados conhecem na carne e na pele a realidade das palavras de Trump.

O Feriado de Bolsonaro

A celebração americana de Bolsonaro se insere nesse debate sobre a tradição e a história. Os feriados são como estátuas, monumentos, no calendário. Monumentos em dias para a história, a religiosidade e a cultura nacional. Naquele dia os brasileiros lembram que um herói foi enforcado pela liberdade; em outro recordam que a santidade da imagem que apareceu em um rio. Em fevereiro festejam a si mesmos.

O que Bolsonaro acha do carnaval? E da cultura indígena? E da cultura negra? O que ele considera como elementos da cultura brasileira? Será que ele quer fazer parte de uma país em que índios e negros sejam elementos fundamentais da identidade nacional?

Ou ele será que ele prefere o país petrificado do tipo que sonha Trump?

A submissão do Brasil aos EUA começou após a segunda-guerra mundial, se aprofundou com a ditadura militar e passou pelo neoliberalismo de Collor, FHC – uma breve interrupção petista – e Temer.

Houve momentos mais explícitos, como o chanceler tucano tirando o sapato para entrar na terra de Bill Cliton, mas até nesse caso, o Brasil adotou a reciprocidade. Nenhum ministro ou diplomata dos EUA foi igualmente humilhado, mas, pelo menos, uns turistas americanos tiveram que tirar os sapatos.

A novidade bolsonarista é a subserviência total, desavergonhada, mesmo triunfante e, até certo ponto, inexplicável. O que os outros queriam disfarçar, Bolsonaro afirma com orgulho. Bate continência para um funcionário da Casa Branca e chora para a bandeira de listras e estrelas. Diz “I love you Trump”. Agora faz questão de mostrar que se sente em casa na embaixada, isto é, em território diplomático, dos EUA.

Por que ser tão explícito? Por que essa questão de mostrar obediência em tudo e a todo instante? Qual sentido de tamanho docilidade e excitação com os americanos, como se fosse um cachorro babão?  

Entre a Colômbia e Israel: Brasil, o novo Porto Rico

As recentes revelações da Vaza-Jato mostram que o FBI coordenou, organizou e dava as ordens diretamente para os procuradores e juízes da Lava-Jato. São tantos, tamanhos e tão variados os ganhos que a Lava-Jato deu aos EUA que não cabe aqui citar. Mas focando em um: deles a “República de Curitiba” abriu a americanização das leis brasileiras, a importação da cultura jurídica dos EUA.

A Lava Jato quer que as leis dos EUA sejam impostas no Brasil. Qual o caminho mais fácil para isso?

Ao longo das últimas décadas, o Brasil foi vítima dos interesses econômicos e das produções da indústria cultural norte-americana.

Com a Lava-Jato, se inicia a importação da próprias leis. O que falta?

Ora, Bolsonaro demonstra o que mais precisamos para alcançar o nosso Destino Manifesto, além do liberalismo econômico de Paulo Guedes e do direito anglo-saxão de Sérgio Moro. Falta também aos brasileiros andaram armados, serem sionistas, formarem uma KKK, atacarem mais os imigrantes, serem ainda mais orgulhosos do racismo e se envergonharem de tudo que são.

E faltam também comemorar o 4th July.

Bolsonaro ataca a Cuba, porque deseja transformar o Brasil na nova Porto Rico, uma espécie de “território não incorporado” aos EUA., no qual ele seja o “governador-geral”.

Talvez a aposta bolsonarista seja que uma nova e imensa crise possa vir a arrastar o mundo, obrigando os EUA a apoiarem regimes de força inteiramente confiáveis, de forma que nem com a eventual derrota de Trump nas eleições, o ocupante Democrata da Casa Branca se atreva a tirá-lo.

Ou no melhor dos cenários bolsonaristas, Trump se reeleja e ataque a Venezuela, podendo usar o Brasil como uma imensa base militar, da mesma forma que faz com a Colômbia. Quão boas não foram as guerra para fechamentos de regime?

Será que na festa da embaixada Bolsonaro, os militares e o 4chanceler brasileiro ouviram ordens do embaixador de como agir contra o vizinho sul-americano?

O Brasil é muito grande para ter o mesmo estatuto jurídico de Porto Rico, mas é possível ser algo entre Colômbia e Israel. Um regime tão intrinsecamente ligado ao Estado, à cultura e à economia dos EUA, que seja um a extensão do outro. Um país base para as ações militares no continente.

Todos os brasileiros comemorarão o 4 de julho, mas nem todos serão convidados para a festa.

Leia também: Lava-Jato prejudica o Brasil

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