Daniel Jadue, o comunista que lidera as pesquisas presidenciais no Chile

Daniel Jadue, o comunista que lidera as pesquisas presidenciais no Chile

De Victor Farinelli e Paola Cornejo, via OperaMundi

Pouco mais de 50 anos depois da eleição de Salvador Allende, nome de Jadue ganha força como resposta aos protestos populares no país

Foi há 50 anos que o Chile virou notícia no mundo inteiro com um presidente socialista que chegou ao poder pelo voto. Salvador Allende surgiu das urnas em plena Guerra Fria, com uma vizinhança cheia de ditaduras de direita apoiadas com os Estados Unidos – naquele 1970, Argentina, Brasil e Paraguai eram governados por militares, embora os argentinos tenham tido um hiato democrático entre maio de 1973 e março de 1976.

Meia década depois, nesse mesmo país escondido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, um novo ineditismo político pode estar germinando. Desde agosto, todas as pesquisas de opinião a respeito das eleições presidenciais chilenas em 2021 colocam o comunista Daniel Jadue ou na liderança isolada ou empatado com algum concorrente de direita.

Também é o que mais vem crescendo em intenções nos últimos meses, o que pode ter a ver com o fato de que suas ideias são as mais próximas às da revolta social de 2019 entre os favoritos até o momento – o que permite supor que esta tendência de crescimento ainda não alcançou seu limite.

A ascensão de Jadue coloca o Chile na direção de outro momento histórico, semelhante ao de Allende: caso mantenha seu crescimento e consiga se eleger em 2021, seria o primeiro comunista a chegar ao poder pelas urnas na América do Sul.

Sua dupla formação acadêmica, em arquitetura e sociologia, foram seu cartão de entrada no mundo da política, mas seu surgimento como figura nacional se deu por suas origens. Apesar de ser militante comunista desde 1993, sua primeira aparição com maior destaque em meios de comunicação foi como Presidente da União de Estudantes Palestinos, em 1987. A partir da década de 2000, seria porta-voz da Federação Palestina do Chile, e como tal, participou em debates na TV com representantes da comunidade judia, nos quais mostrou uma capacidade de debater e impor seus argumentos que chamou a atenção do público.

Foi duas vezes candidato a deputado, mas acabou não sendo eleito. Também insistiu em ser prefeito de Recoleta, uma das comunas mais economicamente vulneráveis da Região Metropolitana de Santiago, e conhecida por abrigar diversas comunidades de imigrantes. Perdeu as eleições em 2004 e 2008, mas foi eleito, finalmente, em 2012.

A partir de então, Jadue passou a se destacar não só pelas coisas eloquentes que dizia, mas sobretudo pelas coisas surpreendentes que fazia. Medidas que chamavam a atenção por serem ataques diretos a alguns princípios do modelo econômico ultraliberal instalado a partir da ditadura de Augusto Pinochet – justamente a que derrubou o projeto da Unidade Popular de Salvador Allende, um socialista que contava com o apoio político do Partido Comunista.

Farmácia, ótica, livraria: tudo popular

O primeiro desses projetos a ganhar repercussão nacional foi a Farmácia Popular, pelo qual a Prefeitura de Recoleta passou a comprar medicamentos dos grandes laboratórios e a vendê-los pelo preço de custo, competindo com as grandes redes de farmácia. A política causou forte debate no país, porque a Farmácia Popular de Recoleta vendia remédios a preços entre 50% e 75% menores que as redes de farmácias privadas – sem contar alguns remédios que eram distribuídos gratuitamente, para doenças crônicas como diabetes, hipertensão e outros. 

Depois da farmácia, Jadue criou criar outras iniciativas “populares”, como a Ótica Popular, a Livraria Popular e até a Disqueria Popular, também baseadas no mesmo princípio de venda de produtos a preço de custo, disponibilizando produtos mais baratos à população. Muitas dessas políticas foram copiadas em quase todo o país: atualmente, há farmácias populares em 90 dos 345 municípios do Chile, até mesmo alguns governos municipais de direita copiaram o modelo, e inclusive já existe uma Associação Chilena de Farmácias Populares, para que esses programas colaborem entre si. As demais propostas foram menos reproduzidas em outras cidades.

Outra de suas medidas foi a criação da Universidade Aberta de Recoleta, projeto que oferece cursos, seminários e palestras gratuitamente para todos os cidadãos do município, embora sem entregar diplomas – o Ministério da Educação não a reconhece formalmente como universidade. A proposta é que alunos e professores que desejem compartilhar seus conhecimentos com a comunidade se inscrevam; deliberem sobre a criação de cursos, ou palestras, ou projetos acadêmicos; e o realizem com o apoio da prefeitura. Vale recordar que, no Chile, o sistema educacional é fortemente privatizado, e o gasto com a educação, para muitas famílias, representa até 65% da renda familiar.

Em seu primeiro ano de funcionamento, em 2019, a Universidade Aberta contou com 319 cursos presenciais e 4 digitais, 492 professores e pouco mais de 11 mil alunos – 7.000 nos cursos presenciais e 4.000 nos digitais. Evidentemente, o número caiu em 2020, ano em que somente os cursos digitais puderam continuar, devido à pandemia do coronavírus.

A última iniciativa de repercussão nacional de Jadue foi a de uma Imobiliária Popular, pela qual o prefeito comunista pretende comprar sua briga mais dura, contra a especulação imobiliária. Segundo o próprio político, a ideia surgiu de um estudo da USACH (Universidade de Santiago do Chile) mostrando que havia famílias no Chile que chegavam a gastar quase 50% da sua renda familiar só com aluguel. “Com a Imobiliária Popular, queremos que os moradores tenham acesso a uma habitação cujo aluguel seja menos de 20% da renda familiar”.

Protestos de 2019 (e 2020)

Em 2019 e 2020, com a revolta social no Chile, Jadue parece ter ganhado ainda mais destaque no cenário nacional, sobretudo por algumas fotos de manifestantes que o flagraram participando dos protestos, mas não como protagonista nem como orador. Simplesmente estava ali, no meio das pessoas, gritando, cantando, aplaudindo, como todas as demais milhões de pessoas que lotavam o centro de Santiago.

O projeto da Unidade Popular allendista  não resistiu ao brutal golpe de Estado, mas a revolta social iniciada há quase um ano, além de soar como um “basta” ao modelo neoliberal do pinochetismo e da aliança de centro-esquerda Concertación, que governou o país durante 24 anos dos 31 anos após o retorno da democracia, também teve ares de reivindicação allendista. 

Embora Jadue não se apresente como porta-voz da revolta e repudie qualquer tipo de alusão a que ele representa os manifestantes, sua imagem como presidenciável cresce. Ele é visto, por muitos, como uma das raras figuras com credibilidade na política chilena atual.

Ainda assim, uma possível vitória de Jadue teria que superar, também, um forte discurso anticomunista presente na política chilena, que promete ser ainda mais intenso a partir de agora, que as pesquisas o mostram com possibilidades reais de vitória e como figura melhor posicionada da esquerda.

A reação de Jadue às pesquisas que o apontam como um dos favoritos ou até como líder nas intenções de voto tem sido a de driblar especulações. Na prática, o prefeito mostra que prefere manter uma dinâmica de trabalho como prefeito de Recoleta, aprofundando a atuação a nível local e inclusive se recusando a admitir que é candidato, embora seus camaradas de Partido Comunista não consigam esconder que trabalham para fortalecer sua primeira figura com chances reais de ser eleito presidente.

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