A BREVE HISTÓRIA DA AL JAZERA

Luã Reis – A Al Jazera, a rede de notícias do Catar, é resultado direto de um golpe de Estado: o emir Hamad Bin Al Thani substituiu o pai no poder em junho de 1995, se antecipando as disputas pela sucessão dentro do clã. O plano de Hamad era uma modernização do pequeno emirado. Em fevereiro de 1996, os governos do Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, junto com os serviços secretos da Arábia Saudita e do Egito, tentaram um contragolpe, ou um golpe dentro do golpe, contra o novo emir. Na época passou batido, mas não despercebido. 

Em abril do mesmo ano, a Arábia Saudita removeu do ar o sinal da BBC árabe que operava no país há pouco tempo, após reportagens críticas a monarquia. Era exatamente o que Hamad precisava, pois, tendo vivido longamente no Reino Unido, vislumbrava criar uma rede de televisão estatal, mas não governamental, nos moldes do Bristh Broadcast Chanel. Os funcionários da antiga BBC árabe se tornaram a base da Al Jazera, o soft power catari, lançada em novembro de 1996. Al Jazera significa “a península” em árabe, tanto a península onde se localiza o Catar, quanto a península arábica. 

Em julho de 1997, a vontade de ir além da península pode ser realizada. O Canal Francês Internacional, CFI, ocupava um espaço no Arabsat, satélite multinacional árabe cujo maior acionista são os sauditas, que alcança boa parte do países árabes, atingindo uma audiência de dezenas de milhões de espectadores. Em um “acidente” nunca explicado, a CFI exibiu um filme pornô pesado no horário da programação infantil em uma sexta-feira. O sinal do CFI foi devidamente cancelado, abrindo o espaço que foi ocupado pela Al Jazera. Com objetivos, estrutura e audiência estabelecidos a península se lançou a disputar narrativas, com o sugestivo slogan “a opinião… e a outra opinião”.

Um canal de notícias 24 horas em árabe feito por árabes com qualidade técnica que nada devia aos ocidentais, sem pudor em criticar ações governamentais, logo caiu nas graças do público. A repercussão fez que Al Jazera fosse procurada por figuras relevantes que quisessem se pronunciar aos povos árabes e ao mundo, como fizeram Bin Laden, Saddan Hussein, Gadafi ou Nasrallah. 

Com o dinheiro Catari, fruto do aumento da exploração de um enorme campo de gás, passou a abrir escritórios pela região. Um desses, aberto em Cabul em 2000, serviu como base privilegiada para a cobertura da guerra do Afeganistão. A emissora não se furtou de denunciar as atrocidades anglo-americanas no país, que resultou em um bombardeio “acidental” que destruiu o escritório em Cabul. Mais difícil ainda acreditar se tratar de acidente, pois o mesmo erro ocorre dois anos depois no Iraque, com soldados americanos atacando e matando um repórter da emissora. A relação entre os EUA e o Catar não foi abalado pelos ataques a Al Jazera. No fim dos anos 90, portanto paralelo a formação do canal, o Catar construiu a maior base americana no Oriente Médio, que permanece até hoje. 

Em 2010 começa a chamada “Primavera Árabe”, cuja a cobertura da Al Jazera definida pelos jornalistas ocidentais como “agressiva”, foi um dos fatores de mobilização e massificação dos protestos. A vingança do emir. Aqueles adversários que tentaram golpear agora eram golpeados: os protestos atingem o Baherein e os EAU, aliados próximos da Arábia Saudita. Mas é no Egito onde a Al Jazera se dedica com afinco a queda do regime, sendo o odiado serviço de inteligência um dos alvos preferenciais dos protestos. 

Recentemente, a Al Jazera expandiu sua rede em idiomas e plataformas, ao mesmo tempo que foi cassada na Arábia Saudita e em Israel. Os partidários de Assad na Síria gritam que “Al Jazera não é árabe”, acusando de serem representantes dos opositores ao governo, cujo financiamento por parte do Catar é de conhecimento público. Em meio ao cerco de alguns países árabes contra o emirado, liderado por Riad, a Al Jazera é uma das armas do soft power, ao lado do PSG e da Copa do Mundo de 2022. 

Quando a destrambelhada senadora, em uma estratégia cínica, embaralha Al Jazera com Al Qaeda há uma meia verdade, posto que é uma relação real. Como é verdadeira a profunda relação entre Catar e EUA, para o qual certamente a reacionária senadora se ajoelha. Mas não cabe maniqueísmo, como segue a polarizada cartilha da política brasileira, para definir o canal árabe. Aliás, Mehdi Hasan entrevistou, com igual dureza, o tucano FHC e a petista Dilma. Da mesma forma que Al Jazera dá voz ao Hamas e ao governo americano, ataca os sauditas e os iranianos. Não por acaso o Catar tem como o principal parceiro regional a Turquia, que também se equilibra na corta bamba entre as diferentes disputas. 

O grande canal de notícias árabe nasceu e vive de uma leitura acertada do governo do país sobre o mundo pós-guerra fria, no qual haveria espaço para dissonâncias. A prática da Al Jazera é a do mundo multipolar, no qual históricas hegemonias estão ameaçadas, até nas comunicações e informação. Portanto, quem pensa que está utilizando a Al Jazera, deve, na realidade, estar sendo usado pelo canal, seja golpista ou não.

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